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quinta-feira, 15 de março de 2012

Lançamentos

No site da Revista de Dança (www.revistadedanca.com.br), você acompanha os lançamentos de livros e vídeos nacionais e internacionais.

Nesta semana, duas ótimas dicas:

- (IN)VISÍVEL REAL, do artista visutal e pesquisador de cinema Tom Lisboa, que marca os 30 anos da montagem do balé O grande circo místico, do Balé Teatro Guaíra, de Curitiba.

- Terceiro Sinal - ensaios sobre a São Paulo Companhia de Dança, que comemora os quatro anos do grupo e também é o terceiro volume de textos concebidos a partir do seu trabalho. O livro tem textos de diferentes nomes das áreas culturais: Alcino Leite Neto, Alberto Martins, Daniel Galera, Eliana Caminada, Inês Bogéa, Marcela Benvegnu, diretora da Revista de Dança, Sidney Molina e Sayonara Pereira.

Quer saber mais? Faça uma visita.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

naBolsa | Ana Luisa Grecco

Ana Grecco: bolsa de bailarina lotada...

Por Marcela Benvegnu

“Na minha bolsa tem remédio pra dor de cabeça e para cólica (para as alunas adolescentes), grampo de cabelo para mim e lacinhos para o baby class, dois pen drives, um com músicas de balé e outro de jazz dance, minha carteira, agenda, duas sapatilhas, sendo que uma é rosa e outra é preta, e uma necessarie com escova de dente, pasta e protetor solar”.

Ana Luisa Grecco, 32, é professora de balé clássico e de jazz em Jundiaí. "Dar aula é compartilhar com as alunas tudo o que eu aprendi na dança. É aprender com elas a cada dia, conhecendo-as uma a uma e criando um laço vai além dos palcos”, diz.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

As Bruxas de Eastwick estreia em SP


Por Marcela Benvegnu


Eles prometem inteligência, assim como foi a montagem do musical My Fair Lady no Brasil. Prometem coreografias vibrantes, talvez esse seja o caso da versão de Cats por aqui. Também incluem no pacote músicas boas, sim o recente New York, New York trouxe isso aos palcos. Também prometem um voo das protagonistas sobre a plateia. Uau! Já estamos na Broadway com o musical mais caro da história: O Homem Aranha. Em musicais, novidades são realmente difíceis, porém, a expectativa para a estreia de As Bruxas de Eastwick, no domingo, dia 14, no Teatro Bradesco (Bourbon Shopping), é grande.

Clara Gueiros e Eduardo Galvão: protagonistas (foto: Divulgação)

Finalmente o mercado dos musicais está aquecido no Brasil. Sai um, entra outro, produz outro, faz audição para outro. Vem aí Cabaret (estrelado por Claudia Raia), A Família Addams (no papel de Mortícia, Marisa Orth), Priscilla – A Rainha do Deserto, que ainda está em processo de audição, Hair... Os artistas, cada vez mais múltiplos e versáteis, estão tendo onde e como trabalhar para poder falar que vivem de arte, dança, canto, atuação. Se faz musical (e bons musicais) no Brasil.

As Bruxas de Eastwick, adaptação do filme homônimo (1987), baseado no livro de John Updike (1984), já foi montado na Inglaterra, Estados Unidos, Austrália, Rússia e República Tcheca. Com letras de John Dempsey, música de Dana P. Rowe e coreografias de Alonso Barros (brasileiro radicado em Viena), a versão brasileira é assinada pelo renomados Cláudio Botelho e Charles Möeller. A dupla, que ganhou livro biográfico -  Os Reis dos Musicais (Tânia Carvalho, Imprensa Oficial) – já esteve à frente de outras importantes montagens de musicais no Brasil - Sweet Charity, A Noviça Rebelde e Avenida Q.

As Bruxas conta a história das amigas Alexandra (Maria Clara Gueiros), Jane (Sabrina Korgut) e Sukie (Renata Ricci). Entediadas e frustradas com a pacata rotina da cidade de Eastwick elas dividem o desejo pelo homem que consideram ideal e vêem suas esperanças renovadas com a chegada à cidade do misterioso Darryl Van Horne (Eduardo Galvão). Extremamente sedutor, ele se envolve com as três e desperta em cada uma a necessidade de liberar os “poderes” que tem dentro de si. O comportamento nada ortodoxo do quarteto escandaliza a cidade. Os poderes e eventos que desencadeiam são cada vez mais sinistros e fora de controle. Quando Alexandra, Jane e Sukie percebem que a influência de Darryl corrompe a todos que com ele tem contato, resolvem usar aquilo que aprenderam (com ele) para exterminá-lo de suas vidas.

Segundo Botelho, “é um espetáculo completamente novo e diferente de qualquer montagem anterior feita pelo mundo”. “Além da direção totalmente nova, 15 cenários de grandes dimensões e 250 figurinos foram criados especialmente para a produção brasileira. Fizemos adaptações no texto e nas músicas. Esta última versão da peça tem canções que não foram usadas nas montagens internacionais” completa.

A crítica sobre o espetáculo deve ser publicada aqui, na Revista de Dança, na semana que vem.

PARA VERAs Bruxas de Eastwick (Teatro Bradesco - Bourbon Shopping São Paulo - Rua Turiassú, 2100, 3º piso, Pompéia).  Estreia dia 14 de agosto até 11 de dezembro. |  Quinta e sexta, 21h. Sábado 17h e 21h e domingo 16h e 21h. |Ingressos custam de R$ 10 a R$ 180  www.ticketsforfun.com.br

sábado, 6 de agosto de 2011

Telas em movimento: Vila Tarsila com a Cia. Druw


Por Marcela Benvegnu

Vila Tarsila com a Cia. Druw | Crédito: Divulgação
O final de semana de (e na) dança em São Paulo tem opções para todos os gostos e idades. O Grupo Corpo está em cartaz no Teatro Alfa com a estreia de Sem Mim, de Rodrigo Pederneiras, e a Cia. de Dança de Diadema também estreia Paranóia, de Ana Botosso e elenco, no Sesc Vila Mariana. Enquanto isso, o Teatro Vivo recebe a partir de hoje, Vila Tarsila, espetáculo de dança contemporânea infanto-juvenil da Cia Druw, com concepção de Miriam Druwe e Cristiane Paoli Quito.

A coreografia, assinada por Miriam, tem como mote as memórias de infância da pintora Tarsila do Amaral e remonta sua trajetória criativa, desde suas primeiras impressões sobre cores e formas até as origens dos elementos que influenciaram diretamente sua criação artística. A coreografia transporta o espectador ao mundo antropofágico da artista, demonstrando que sua obra nasceu das experiências visuais das inúmeras viagens realizadas e das brincadeiras na fazenda onde vivia em Capivari, interior de São Paulo.

A diretoras buscaram referências em algumas telas da pintora modernista para inspirar os seis bailarinos/intérpretes-criadores e a atriz Luciana Paes. “Depois de Lúdico (espetáculo anterior de dança infanto-juvenil inspirado nas obras do pintor russo Wassily Kandinsky), tivemos a ideia de pesquisar um pintor brasileiro, daí surgiu o nome da Tarsila do Amaral. Não tenho uma fórmula para coreografar para crianças, apenas tenho o desejo de explorar essa junção de linguagens. Adoro o que faço, é uma necessidade, acho que por isso que tem dado certo, pois o impulso é movido pela vontade de se cumprir um caminho. Sei que tenho que criar para crianças, elas me curam, é retorno sincero, energia que flui. É muito instigante”, fala Miriam. 

Segundo Miriam, produzir para crianças é um espaço a mais que se abre na Cia Druw. “Paralelamente ao trabalho de bailarina e coreógrafa, sempre estive envolvida em projetos ligados à criança. Durante 15 anos,  fui voluntária coordenando um projeto de dança em Interlagos. Foi um período muito especial da minha vida” ressalta a coreógrafa, que também tem um projeto para o público adulto . “Sinto que minha pesquisa sobre Van Gogh tem muitos subterrâneos a serem explorados. É sombra e luz o tempo todo em pinceladas alternadas. O elenco está muito envolvido, estudando muito”, diz.
Em Vila Tarsila, os cenários e figurinos são de Marco Lima e a trilha sonora original de Natália Mallo foi inspirada na obra de Villa-Lobos.

Paralelamente às criações, Miriam foi convidada, no ano passado, para dirigir o primeiro Corpo Estável de Dança do Teatro Municipal de Jundiaí. “O contrato é por um ano e faremos uma produção para 18 de dezembro, aniversário de 100 anos do Teatro Polytheama. Este projeto foi idealizado pelo ex-diretor do Teatro Municipal Wagner Nacaratto, que propôs o projeto dos Corpos Estáveis de teatro, dança e orquestra. Um importante acontecimento para a cidade. As inscrições foram feitas por um edital no final de 2010 e foram contratados sete bailarinos e dois estagiários que recebem salário pela prefeitura.”

ELA – Miriam Druwe tem uma trajetória extensa na dança brasileira. Premiada pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) como melhor bailarina em 1993, dançou profisionalmente no Balé da Cidade de São Paulo e na Cisne Negro Cia de Dança. Já trabalhou ao lado de grandes ícones como Luis Arrieta, Ana Mondini, Vitor Navarro, Vasco Wellemcamp, Gigi Caciulenou, Ismael Guiser, Sacha Svertlof e outros.

PARA VER – Vila Tarsila, com a Cia. Druw. De hoje a 28 de agosto e dias 3 e 4 de setembro. Sábados, às 16h e domingos, às 15h, no Espaço Cultural Vivo (avenida Dr. Chucri Zaidan, 860 | Morumbi). Entrada gratuita. Mais informações: (11) 7420-1520

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Olhar a cena

Por Flávia Fontes Oliveira

Angel Vianna tem uma frase linda que costuma dizer: “Eu gosto de gente”. Ela, que é uma dama da dança brasileira, sabe do que está falando. As pessoas enriquecem tudo e, mesmo quando não dá para distinguir, são elas que, ponto a ponto, apontam os caminhos.

Marcela Benvegnu, minha sócia aqui, está acompanhando a primeira viagem internacional da São Paulo Companhia de Dança e está escrevendo, como repórter incansável que é, um diário sobre esta experiência. São muitas informações com um olhar “de dentro”. E é on-line: www.saopaulocompanhiadedanca.blogspot.com. “Eu queria mostrar um olhar além do palco, os bastidores e, sobretudo, quem são as pessoas”, ela me diz. Uma beleza, vão lá.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

No espaço do entre | Crítica New York, New York


Por Marcela Benvegnu

Este é meu primeiro texto em primeira pessoa para a Revista de Dança. Talvez seja o único. Já dizia Bento Prado Junior em seu livro Sereia Desmistificada que o crítico habita o intervalo, o espaço que separa público e espetáculo. E questiono aqui qual seria o papel do crítico quando ele habita o espaço do entre o público e a melhor amiga no palco? Não criticar? Seria essa a resposta mais ética? Cabível então é me colocar neste lugar (de público e de melhor amiga), e entender que é possível olhar para o espetáculo criticamente, mesmo recebendo informações privilegiadas sobre ele. Como diz a letra de My Way, de Claude François , Jacques Revaux e Paul Anka, uma das canções do musical New York New York,  é preciso aqui “dizer as palavras que verdadeiramente sente”.

Fui no sábado, 11, pela segunda vez assistir a montagem com direção artística de José Possi Neto (que na sequência já dirigirá Cabaret, com Claudia Raia como protagonista), e direção musical de Fábio Gomes de Oliveira, no Teatro Bradesco, em São Paulo. Esta é a primeira versão musical do texto baseado no livro do escritor americano Earl MacRauch. O romance ganhou adaptação para cinema em 1977, com direção de Martin Scorsese e interpretação de Liza Minnelli e Robert De Niro. A trama conta a história de amor entre a cantora Francine Evans (Alessandra Maestrini) e o saxofonista Johnny Boyle (Juan Alba) na América do pós-guerra, no auge das big bands dos anos 30 e 40. 

Maestrini e Alba: os protagonistas de NY NY | Foto: Divulgação
 A casa que parecia vazia faltando dez minutos para o início a apresentação se transformou. O teatro estava lotado e o público receptivo. Sinal que, quase ao final da temporada, com dois espetáculos aos sábados, a peça tem fôlego e, claro, temos público para musicais, um fenômeno recente em terras brasileiras.

A peça, uma comédia romântica, que começa num 2 de setembro de 1945, tem roteiro atual, diferente do seu próprio tempo, com uma pitada de humor, que transforma o então moderno em contemporâneo, sobretudo, pelas projeções presentes. As músicas (entre elas Sing Sing, de Benny Goodman, e claro, New York, New York, de John Kander e Fred Ebb) são cantadas em inglês, o que nos poupa de uma tradução que faça com que a obra ganhe outros contornos. Porém está presente e é bem colocada num lettering no palco, a não ser em Fever, quando a inteligente Simone Gutierrez (Srta. Perkins), protagoniza Fever e seu texto em primeira pessoa é transformado pelo lettering em terceira. Dá outro sentido. Faz diferença. 

Simone Gutierrez em Fever: um dos melhores momentos | Foto: Divulgação
   
 É interessante notar como as coreografias de Anselmo Zolla e Kika Sampaio já estão incorporadas ao corpo dos bailarinos. Na pré-estreia, em 11 de abril – exatos dois meses - , os bailarinos ainda precisavam se moldar ao movimento. A dança ainda não estava incorporada. Hoje isso é diferente. Eles já tem a autonomia do gesto e estão bem ensaiados. Os destaques ficam para a coreografia de Zolla com o elenco masculino em Fever, uma sequência elouquente e ritmada no chão, e o trem uma delicada e simples coreografia de sapateado de Kika Sampaio que dialoga com a projeção de um trem atrás dos bailarinos.  É sutil e poética.

Parte da dramaturgia da cena está relacionada à iluminação brilhantemente conduzida que cria diferentes ambientes num mesmo espaço sem comprometer a cena. Os figurinos, leia-se Atelier Chris Daud para Claudeteedeca e Miko Hashimoto, fazem bem aos olhos, com destaque para os sapatos bicolor.

Alessandra Maestrini, protagonista, dona de uma excelente atuação pode “não chacoalhar os ossos” como diz, mas não precisa. Ela faz o que quer, pensa e bem entende com a sua voz. Linda de ver e ouvir.

Seja com os Goldens Boys, no The Palm Club, Harlen ou na Pensylvania Station é possível ver ali a potencialidade de cada bailarino e o mérito do diretor em trabalhar o que cada um tinha de melhor e colocar isso em forma de espetáculo no palco. Aqui entra a minha melhor amiga. Christiane Matallo sapateia e toca saxofone tenor há mais de 15 anos. Isso não é uma novidade para mim. Midnight Voyage a música que une sax tenor e sapatos faz parte do seu repertório. Consigo ver de olhos fechados. Mas como é interessante reconhecer aquilo até então familiar para mim dentro de outro contexto, maior. É aqui que está o entre. O diretor usa seu corpo como instrumento da personagem e sua técnica a favor do musical.
Christiane Matallo: primeira mulher da direita para esquerda: placas no pé | Foto: Divulgação
E mais uma vez, na voz do texto da montagem, como diz o professor de sapateado de Francine Evans, que a gente “continue dançando” aqui ou em Nova York e, sobretudo, se reconhecendo no palco, mesmo quando lá em cima, entre a plateia e a quarta parede também está um pedaço de você.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Dica | Priscilla: para todo mundo ver!


Para não deixar de ver em NY: Priscilla | Divulgação Broadway

Por Marcela Benvegnu

Eles, ou melhor, “elas” são um verdadeiro escândalo! Depois de arrebentarem nos teatros da Austrália e de Londres, invadiram a Broadway, em Nova York. A versão musical de Priscilla – A Rainha do Deserto repete a história do filme de 1994, em que duas drag-queens e uma transexual são convidadas para cruzarem o deserto australiano em um ônibus chamado Priscilla. No caminho, surpresas e aventuras que mostram superação e, sobretudo, bom humor. 

Com produção de Bette Midler, direção de Simon Phillips e estrelado por Will Swenson (Mitzi), Tony Sheldon (Bernadette) e Nick Adams (Felícia), o musical é infinitamente melhor do que o filme. 

A trilha sonora é um convite. Impossível sair de lá sem o CD ou mesmo sem cantarolar uma das canções como: Go West, I Will Survive, It’s Raining Men, Material Girl, I Say a Little Prayer, que são brilhantemente interpretadas pelo trio Jacqueline Arnold, Anastacia McCleskey e Ashley Spencer. As coreografias originais de Ross Coleman são simples, porém, muito bem executadas por um trio de atores que são obrigados a andar (e dançar) com um sapato plataforma muito maior do que os convencionais. Os figurinos de Tim Chappel e Lizzy Gardiner são de faltar ar, tamanha beleza e brilhos. Por falar em brilho e luz, isso é o que não falta ao musical. 
Mimo: sapato que brilha no escuro


Essa é apenas uma dica para quem estiver procurando o que assistir em NY e tiver que escolher apenas um musical. O ingresso vale a pena.  Ah! Um mimo: comprem o sapatinho que brilha no escuro e é na verdade um imã ($ 8 dólares) e o copo de refrigerante ($ 5 dólares), que é de plástico resistente e você leva para casa. E não vale esquecer de pegar a sua Playbill colecionável para ler e reler depois.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Reflexão | JAZZ DANCE: a técnica como resultado da preservação do estilo

Por Marcela Benvegnu

Shaft Revisited de Sue Samuels: jazz em essência  | Foto: Jan La Salle.
No Brasil, quando assistimos a um trabalho inscrito na categoria de jazz dance e ele é na verdade uma coreografia de dança contemporânea, nos questionamos o por quê daquela obra estar ali. Onde está o swing, a tradução literal do jazz? Como a cada dia as linguagens estão mais híbridas e se ouve que “na dança tudo pode” cria-se essa confusão, que num primeiro momento até parece adequada já que não temos uma companhia de jazz profissional - os referenciais do gênero estão nas décadas de 1980 e 1990 -  e não existe uma sistematização do gênero no Brasil. Porém, no jazz, a forma de que tudo pode não se aplica. 

O questionamento (antigo) volta à cena: O jazz morreu ou se transformou? O que é um puro trabalho de jazz? Aquele que usa a técnica tradicional para se organizar ou aquele que usa a técnica para criar outras formas de movimentação sem fugir do estilo original? Ambos. O jazz tem técnica (Fosse, Luigi, Giordano, Cole, Dunham, Mattox, Robbins e outros), está longe de morrer porque passou por um processo natural de transformação.  

O que falta aos coreógrafos hoje se chama técnica. Com o domínio da mesma, esses professores podem transformar o que até então era chamado de tradicional em contemporâneo, mas sem sair do estilo, sem deixar de fazer jazz dance. Será que, por exemplo, as contrações de Luigi ou os pas de boureés com braços abrindo e fechando de Giordano já foram vivenciados no corpo dos professores de jazz? Sem técnica não se dança (nada).  

Não é só no Brasil que ela está em falta. No dia 21 de junho, a sala 5 do Alvin Ailey Studio (The Ailey Studios at The Joan Weil Center for Dance), em Nova York, foi sede da primeira edição de 2011 do New York Jazz Choreography Project, dirigido por Marian Hyun e Marete Muenter desde 2007. O projeto pretende preservar o jazz dance e permite que coreógrafos do gênero apresentem seus trabalhos. A direção recebe inscrições de toda a América do Norte e seleciona alguns nomes, visando a diversidade de vertentes das obras para compor o programa de duas edições por ano. A próxima edição está marcada para os dias 12 e 13 de novembro, no Ailey Citygroup Theatre, no Alvin Ailey Studio.

A noite não foi longa, mas difícil. Entre os onze trabalhos apresentados – seguidos de um bate-papo – a maioria pincelava uma movimentação jazzística com muita dança contemporânea. Se o corpo começava a dizer algo, o rosto se fechava. Em outros momentos, a música pedia um tipo de dramaticidade e se via um sorriso fora de lugar. Corpos lindos e alongados mostravam sequências acrobáticas em detrimento da coreografia. 

A luz no fim do túnel foi Shaft Revisited, de Sue Samuels, diretora da Jazz Roots Dance, uma companhia de jazz dance de Nova York, criada em 2009, que se dedica a preservação do jazz tradicional. Sue é uma das fundadoras, ao lado de Jojo Smith, da Jo Jo Dance Factory, que posteriormente se tornou a Broadway Dance Center. Shaft Revisited é um trabalho original de Smith, revisitado agora pela coreógrafa. Não é preciso procurar pelo o jazz. Ele está lá, no corpo dos intérpretes durante todo o trabalho. É técnico, musical, dançado. A coreografia faz com  que o espectador tenha vontade de se juntar ao grupo para dançar. A movimentação é um convite e revela a técnica como preservação do estilo. Shaft Revisited é um jazz tradicional e se assume desta forma. É o jazz em essência. 

Se os coreógrafos tivessem essa base no corpo para fazerem o que levam ao palco hoje (sem a confusão do gênero) a nossa pergunta talvez pudesse ser diferente: o jazz acordou ou cresceu? E poderíamos responder: ambos, porque com técnica e dentro do estilo, quase tudo pode.

Leia um pouco sobre história do jazz no Tudo é Dança: Broadway Circuito de Produção.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Programe-se | Convite

Por Flávia Fontes Oliveira

O programe-se desta semana é especial. Marcela Benvegnu, minha sócia querida nesta empreitada, dará um curso neste fim de semana, dias 4 e 5, em Piracicaba – sua segunda cidade natal.

O tema é História da Dança, como parte do projeto de formação extensiva do PiraproDança (Programa Anual de Dança de Piracicaba), e também é gratuito. O curso lança novos diálogos e formas de olhar a produção atual de dança pelo recorte oferecido pela Marcela. Em debate, questões relacionadas às origens e ao desenvolvimento da dança cênica ocidental, seus desdobramentos em manifestações, movimentos e espetáculos.

O conteúdo prevê as seguintes abordagens: nascimento do balé (Renascença), balé de ação, os balés brancos (período romântico), era Diaglilev, dança moderna, expressionismo na dança, dança pós-moderna, dança contemporânea, dança-teatro, performance, vídeo-dança, sapateado, jazz dance e musicais, danças urbanas, dança no Brasil e festivais/companhias.

São 40 vagas e, para se inscrever, o email é formacaoextensiva@piraprodanca.com.br
É preciso enviar currículo e carta de interesse. Eu aposto que será incrível!

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Kika Sampaio e o universo dos musicais

Por Marcela Benvegun

Kika Sampaio em cena |
Foto: acervo da artista
Desde 1988 ela divide seu tempo entre o Kika Tap Center, escola que criou em 1982, e o mercado dos musicais no Brasil. “O primeiro musical que assinei como coreógrafa foi a versão paulista de As Noviças, dirigido por Wolf Maia. Depois, em 1989, coreografei, atuei como atriz e bailarina em Cabaret, com direção de Jorge Takla”, diz a coreógrafa Kika Sampaio, em entrevista a Revista de Dança. Hoje, 25 de maio, data em que se comemora o Dia Internacional do Sapateado (leia a matéria que explica a data aqui), preparamos um bate-papo com ela que é referência no assunto. Abaixo, ela conta um pouco sobre este universo, em especial de seu último trabalho: as coreografias de sapateado de New York, New York, musical com direção de José Possi Neto, em cartaz no Teatro Bradesco, em São Paulo. Confira os melhores trechos:

Sua lista de musicais vai além dos que você já citou...
Kika Sampaio: Sim. Para citar alguns coreografei: Não Fuja da Raia (1991), com direção de Jorge Fernando; atuei como atriz e produtora no infantil Chapeuzinho Vermelho (1993), de Flávio de Souza, com direção de Mira Haar; fui assistente de direção e coreógrafa de sapateado de Victor ou Vitória (2001), de Jorge Takla, e entre os mais recentes destaco Gypsy (2010), de Charles Moeller e Claudio Botelho, no qual fui ensaiadora de sapateado do elenco infantil e New York, New York.  Desde 2007 dirijo a KS Cia. de Sapateado, sou colunista de dança do site  www.chezcroque.com.br e preparo um pocketshow com crianças de 8 a 12 anos.

Como é coreografar para musicais? O que você prefere: remontar uma obra ou adaptá-la? 
Kika: Coreografar para musicais é trabalhar em parceria com o diretor do espetáculo, pois você cria a ideia ao lado dele e assim coreografo livremente dentro daquele contexto. Entre a remontagem e a adaptação, acho a remontagem mais difícil, pois temos que ser fiel à ideia original, concordando ou não com o desenvolvimento da obra. É preciso ter respeito, cuidado para que nada seja alterado. A adaptação, apesar de ter a autorização do coreógrafo para pequenas modificações para o elenco, pode dar ou não dar certo, pois você depende do material humano que tem em mãos, mas não me incomodo com isso.  Uma vez que aceito um trabalho, sei das condições e aí temos que aplicar a eficiência para termos o resultado.


Em Cabaret, 1989, atuação como atriz e bailarina |
Foto: acervo da artista
Como você olha para o cenário dos musicais hoje?
Kika: Acho muito bom. É um grande campo de trabalho. Alguns bailarinos, que já estariam fora da cena por conta da idade se resolvessem se dedicar somente a companhias profissionais, têm a carreira prolongada por conta da atuação nos musicais. E, no contraponto, a cada dia aparecem mais jovens que cantam, dançam e interpretam preparados para fazer o trabalho, sem contar que, se os produtores investem nestes grandes projetos, é porque o mercado necessita da existência deles.

RD - Seu último trabalho foi em New York, New York. Você pode contar um pouco da sua experiência?
Kika: Cada trabalho traz diferentes propostas e diferentes diretores. Este em especial foi interessante, pois o Possi dá um valor maior à dança e isto se torna bastante instigante do ponto de vista coreográfico, com suas coerentes intervenções e até criações junto ao corpo de baile. O mais difícil e ao mesmo tempo desafiador neste trabalho talvez tenha sido quando o Possi pediu para eu coreografar trechos de sapateado nas coreografias de Alselmo Zola (que assina as coreografias de dança contemporânea do musical). A experiência foi fantástica, pois, quando temos respeito pelo trabalho do outro, tudo acaba sendo uma enorme tela com pinceladas de duas pessoas criativas, na qual o produto final se revela interessante e divertido. Hoje sentada assistindo ao musical pronto fico muito orgulhosa e feliz por ter vivido mais este aprendizado. 

Qual a dificuldade de coreografar para um elenco que nem sempre tem experiência com sapateado? Como é que você realiza esse trabalho de corpo?
Kika: Aí que é interessante. Como criadora tenho um desafio pela frente: enxergar pessoas com diferentes corpos e entender que milagre na dança não existe. Tenho que entender a proposta do diretor, do maestro, elaborar e aproveitar a criação muitas vezes espontânea que os bailarinos me oferecem e criar sobre este universo. A criação vem da simplicidade e da compreensão daquilo que é oferecido para o coreógrafo.

Uma das cenas mais marcantes de New York, New York é a que chamamos de trem: uma projeção na tela mostra os trilhos de um trem e os sapateadores fazem o som da máquina. O público vem abaixo. Como foi criá-la?
Kika: Foi muito simples. Segundo o Possi e a minha assistente Glaucia da Fonseca, eu vinha falando de um trem que queria fazer, mas não me lembro disso (risos) e de repente tinha nas mãos o desafio de tirar os bailarinos de cena sapateando. Foi aí que o trem veio, simples assim. O resultado do som se completa com a projeção atrás dos intérpretes.

Você é professora de sapateado americano. Como está este cenário no Brasil hoje?
Kika: Bastante diversificado. Se for pensar só no mundo do tap, sapateadores, bailarinos sapateadores, brasilian tap, é pequeno e amplo ao mesmo tempo. Pequeno por ter poucas pessoas capazes de atuar e transformar o sapateado em dança. Amplo, pois alunos e professores adoram se apresentar, então é o que vemos em festivais, mostras. Assim temos a sensação de termos muitos sapateadores. Nos musicais a participação do estilo ainda é pequena, por isso a dificuldade de bailarinos sapateadores. O investimento do bailarino é uma escolha, então não podemos exigir que saibam tudo, afinal o custo se torna caro e infelizmente os bailarinos sobrevivem na maioria das vezes de dar aulas.
Hoje o sapateado continua o mesmo na sua essência. Não vejo gênios no cenário brasileiro e nem grandes coreógrafos, só consigo ver diferentes ideias dentro de um contexto já conhecido por mim há muitos anos. Mas fico feliz de ver o sapateado ainda em destaque, devido aos intercâmbios feitos por algumas escolas.

O Trem, cena de New York, New York | 
Foto: Divulgação 
Você dirige a KS – Companhia de Sapateado que reúne grandes nomes do estilo no país. A KS é um sonho realizado ou ele ainda falta algo nesse caminho?
Kika: A KS é um sonho inacabado. Este ano foi mais difícil porque os integrantes estão em momentos diferentes de vida e não conseguimos nos reunir ainda. É evidente que a falta de patrocínio desanima, uma vez que tenho que bancar o mínimo para a companhia. Então estamos em fase de amadurecimento e pensando quais serão os nossos “Novos Caminhos”. O que tem de ficar claro é: não existem companhias de sapateado no Brasil com patrocínio e que possam literalmente dizer que vivem disso. Eu, pelo menos, não conheço ninguém que fique sapateando oito horas por dia ou fique trancada numa sala fazendo suas pesquisas e discutindo com figurinistas e coreógrafos.  Encontrar-se com alunos algumas horas por semana, criar coreografias e dizer que são uma companhia tem uma porção. O que não é ruim, mas infelizmente estas pessoas não podem se considerar uma companhia ou mesmo coreógrafos. São grupos de sapateado com bons criadores a fim de dançar e isto é bom também, mas é preciso ter esta consciência.

RD – Você acredita na dança...
Kika: Eu amo a dança. Estudei parte da minha vida para ensinar algo que sempre acreditei. Continuo aprendendo com os jovens, assistindo a balés, indo a exposições e lendo bons livros. A idade nos traz a paz do conhecimento. Ainda dou aulas com muito prazer, é isto que sei fazer. Só fico muito magoada quando ainda tenho de provar que não morri e existo com grande orgulho de ter conquistado um espaço neste pequeno mundo dançante. Talvez esse seja o motivo de a cena do Trem (do musical New York, New York) ser aplaudido durante o espetáculo. Talvez ela conte a minha trajetória artística: chego devagar, vou crescendo, fico veloz e continuo caminhando, paro nas estações, mas continuo caminhando...

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Um olhar sobre Balanchine-Robbins

 
Apollo, de Balanchine | Divulgação
Por Marcela Benvegnu, de Nova York

O David H. Koch Theatre, no Metropolian Opera House, em Nova York, estava completamente lotado na última quarta-feira, dia 18. Óbvio. Não é sempre que o New York City Ballet (NYCB) coloca lado a lado, em um único programa, obras de seus dois coreógrafos fundadores: George Balanchine (1904-1983) e Jerome Robbins (1918-1998) - a companhia foi fundada por Balanchine e Lincoln Kirstein (1907-1996). De Balanchine apresentaram Apollo (1928) e La Sonnambula (1946), de Robbins Afternoon of a Faun (1953) e Antique Epigraphs (1984). Resumindo: mais do que um programa de primeira, na verdade, um motivo para se entender um pouco mais de história da dança.

Pouco antes da apresentação, um grupo de aproximadamente 50 pessoas participou do que eles titulam de painel de discussão, um projeto de formação de plateia no qual, por aproximadamente 15 minutos, um representante do NYCB apresenta detalhes dos programas da noite. A ação criada há muitos anos pela Companhia pretende que o público não assista somente uma sequência de passos, mas entenda cada obra dentro de seu contexto histórico e possa criar diálogos entre os programas da companhia.

Criada com o nome de Apollon Musagète para os Balés Russes, de Sergei Diaghilev (1872-1929), com música de Igor Stravinsky (1882-1971), Apollo é o mais antigo balé de Balanchine presente no repertório do New York City Ballet – a companhia o estreou em 1951. Os bailarinos o executam com propriedade, os corpos têm o idioma Balanchine; logo, a movimentação é natural. Balanchine dialogava o tempo todo entre o simples e o complexo. Uma de suas marcas: a guirlanda de corpos e braços em quinta posição está presente nas torções e inclinações dos intérpretes. As bailarinas são precisas, mas Chase Finlay (Apollo) é quem nos imobiliza. Sua força cênica faz com que os olhos se percam.


Antique Epigraphs, de Robbins | Divulgação

Ainda de Balanchine, La Sonnambula nos leva para o mundo dos musicais. Ao assistir a esta obra,  podemos entender hoje como muitas coisas se articulam na cena e como reproduzimos formas coreográficas, às vezes, sem saber de onde elas vêm. Balanchine coreografou este balé em 1946 – com o nome de Night Shadow – para o Ballet Russe de Monte Carlo sobre a música de Vittorio Rieti, baseada nas óperas de Vicenzo Bellini. A peça estreou pelo NYCB em 1960. A história de mistério e de amor entre uma sonâmbula e um poeta é um verdadeiro baile, com direito a minueto, dança de pares e palco lotado por bailarinos impecáveis em técnica. Os cenários e figurinos de Alain Vaes chamam atenção pela beleza, e a intensidade de luz de Mark Stanley dá à coreografia a dramaturgia de cada momento da cena. Um detalhe que chama atenção e faz diferença no resultado: os pés esticados dos bailarinos nos sapatos de salto e a beleza no acabamento dos movimentos. Pela tradição NYCB, não poderia ser diferente.

No meio das peças de Balanchine, como um convite ao estudo da vida de Jerome Robbins, foram apresentadas, respectivamente: Afternoon of a Faun e Antique Epigraphs. A releitura de Robbins para Prèlude à L’aprés-midi d’un Faune (1912), de Vaslav Nijinsky (1890-1950), sobre música homônima de Claude Debussy (1862-1918) é primorosa. Se Nijinsky chocou Paris na época de sua criação por levar ao palco um balé em que o erotismo estava presente, Robbins fez exatamente o contrário. Ele leva o enredo para dentro da sala de ensaio, reconstruída na caixa-preta por Jean Rosenthal, na qual os espelhos são grandes janelas azuis, um fauno (Craig Hall) delicado e contido, que sonha com um amor impossível. Sua ninfa é uma bailarina (Janie Taylor) de cabelos longos e soltos, que dança para ele e com ele. Os intérpretes são longilíneos e, sobretudo, técnicos e o pas de deux é tão bem construído que os oito minutos passam como se fossem segundos. 
La Sonnambula, de Balanchine
Divulgação
Mais do que Afternoon of a Faun, Antique Epigraphs dialoga de forma direta com o fauno de Nijinsky por conta dos movimentos lembrarem imagens dos frisos gregos – a  a versão do fauno de 1912 foi inspirada nos frisos dos vasos gregos e nas imagens egípcias do Museu do Louvre. Este balé, também com música de Debussy, teve a música inspirada num poema (outra semelhança com a composição do fauno de Nijinsky, criada por conta do poema de Sthéphane Mallarmé) grego chamado Songs of Bilitis. O conjunto de oito intérpretes é forte. O movimento delineado dos braços chama atenção pela limpeza e também pela sincronia. Mais interessante é ver como Robbins transitava entre diferentes estilos de movimento sem choques – isso lhe garantiu grande reconhecimento e sua versatilidade passou a ser admirada. Ele, por exemplo, coreografou West Side Story, um dos grandes musicais da Broadway, em cartaz até hoje, no qual se configura como um grande corógrafo de jazz. Uma suíte deste musical será apresentada pelo NYCB na semana que vem num programa somente dedicado ao coreógrafo. Ah, sim. O NYCB faz jazz, tem aulas de jazz, ou melhor, dança jazz (também).

Nessa noite, mais do que o detalhe do movimento, o que salta aos olhos é a história. É preciso dizer que o programa do NYCB (a famosa revista chamada de Playbill) é o mais completo de todos do circuito da dança americana deste segmento por trazer a biografia dos coreógrafos e fundadores com datas de nascimento e morte e também a história contextualizada de cada uma das obras apresentadas. Muitas companhias apresentam Balanchine e Robbins, mas é preciso que o passado sobrevive e se reinventa no presente. É bom olhar para trás.


quinta-feira, 19 de maio de 2011

Entre o ABT de Herrera e Carreño: uma companhia jovem

Por Marcela Benvegnu, de Nova York


Paloma Herrera em Dom Quixote
Foto: Mira | © Copyright 2010 Ballet Theatre Foundation
Paloma Herrera entrou para o corpo de baile do American Ballet Theatre (ABT) aos 15 anos. Tornou-se solista aos 17, primeira-bailarina aos 19. Hoje, aos 35, ela sobe ao palco do Metropolitan Opera House, em Nova York, para comemorar 25 anos de carreira no ABT interpretando um dos mais famosos clássicos de repertório de todos os tempos: Dom Quixote, coreografia de Marius Petipa (1818-1910) e música de Ludwig Minkus (1826–1917). A noite de comemoração aconteceu na última terça-feira, 17 de maio.

Herrera dá vida a uma Kitri madura, o que faz determinadas cenas ganharem dramaticidade. Em contraponto, tem um toque de afetação que talvez possa ser relevado pela própria comemoração. A noite era dela e para ela. Dona de uma técnica de extrema qualidade, de linhas de pés e pernas perfeitas, ela abusa das sustentações e brinca com os giros e equilíbrios. Fica simples girar 24 fouetées sem titubear.

Nesta apresentação, José Manuel Carreño interpretou Basílio. Se a festa não fosse para Herrera, com certeza poderia ser para ele. Seus saltos congelavam no ar e suas sequências de 11 piruetas eram tão seguras que em alguns momentos ele ralentava o movimento de propósito. A orquestra regida Ormsby Wilkins o esperou em pausa para não perder o andamento.

Se por um lado Herrera e Carreños se destacam pela maturidade, o atual elenco do ABT (vale lembrar que um dos solistas da companhia é o brasileiro Marcelo Gomes) é jovem em todos os sentidos: idade, técnica e, sobretudo, dramaticidade. O corpo de baile contrasta com os solistas. Falta um pouco de harmonia nesse intervalo entre os grandes e o que vem por aí.

Quem chama atenção é Joseph Phillips, como o chefe do acampamento cigano, e Sarah Lane, como cupido. A variação de Phillips, remontada por Kevin McKenzie, diretor artístico do ABT, mostra toda sua versatilidade, força técnica e cênica. Ele é impecável. E a veloz e precisa Lane faz com que a plateia se arrume na cadeira para poder ver como ela é uma grande bailarina, mesmo tendo baixa estatura.

Impecável também foram os cenários assinados por Santo Loquasto. No terceiro ato, quando acontece o casamento entre Basílio e Kitri, dá vontade de pedir para que os bailarinos fiquem parados para poder olhar cada detalhe da vila retratada. Um exemplo é um tapete pendurado no teto ou mesmo a sujeira do telhado. Os figurinos, também de Loquasto, apesar de apresentarem cores muito vibrantes, tipicamente americanas, são trabalhados cuidadosamente em sua releitura. O vestido das sequidillas, com saia dupla pouco abaixo dos joelhos e levemente brilhante, é uma das mais lindas peças. Para completar, uma de suas mais importantes estrelas: a luz, de Natasha Katz. O desenho na cena era puro movimento. Coreografia de cores e climas que ajudaram – e muito – a plateia entrar na história.

O ABT trouxe ao palco um clássico, com os solistas “clássicos”, mas que precisa tornar homogêneo, ao menos nesta obra, o seu corpo de baile, ou seja, aqueles que fazem com que esses grandes nomes apareçam.
José Manuel Carreño em Dom Quixote
Foto: Roy Round | © Copyright 2010 Ballet Theatre Foundation


naBolsa | Tatiana Campani Klinger

Por Marcela Benvegnu
Estudos teóricos + professora de dança = Tatiana Campani Klinger | Foto: Eugênia Klinger  
“Batom, gloss, escova, uma latinha com vários elásticos e presilhas de cabelo, escova e pasta de dentes, espelhinho, óculos de sombra, celular, um pen drive, carteira, um par de meias com anti-derrapante por causa do pilates. As sapatilhas ficam na academia, pois tenho um armário lá.”

Tatiana Campani Klinger, 31, é bailarina. Pós-graduada em Estudos Contemporâneos em Dança pela UFBa e graduada em dança pela Faculdade de Artes do Paraná, FAP. É professora de balé clássico, contemporâneo e jazz da Academia Ensaio, de Rio Grande, Rio Grande do Sul. Também é instrutora de Pilates pelo Phisycalmind Institute.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Dois olhares sobre Green Door | Videodança


Vale a pena assistir a este videodança de Neda Ponzoni, Renzo Vasquez e Silvia Razuk. Infelizmente, ele não está no YouTube e não podemos postá-lo aqui, porém você pode conhecer os nossos olhares abaixo. Vale a pena ver.

Por Flávia Fontes Oliveira
Neste pequeno vídeo de dança, Green Door, um desafio, um vídeo-coreografia. Com recurso da edição, da fotografia e, claro, das intérpretes, ele dança. Isso me pareceu o mais interessante, nos espaços dos corpos, a cidade dança, participa dos intervalos, continuando o movimento.


Por Marcela Benvengu
Antes da imagem e do corpo, ou seja, antes do videodança: a música. É ela quem pontua a intensidade do movimento e de seus cortes em Green Door. A delicadeza do gesto. A mão. Os olhos. Ouvidos. A boca. Um toque. Pausa que se movimenta. Sinal de acesso. Porta para liberdade. Sentidos. 





domingo, 15 de maio de 2011

Sapateado o mês inteiro

Por Marcela Benvegnu

Bill Bojangles: o sapateado na meia-ponta | Divulgação
Uma particularidade nessa nossa possível história da dança é que temos um dia para olhar (e comemorar) o tap dance, ou seja, o sapateado. A data do dia 25 de maio foi escolhida por ser o aniversário de Bill Bojangles Robinson (1878-1949), o precursor do estilo.
A contribuição de Bojangles para o sapateado foi muito valiosa e específica: ele levou o estilo para a meia-ponta, trazendo aos palcos uma leveza e clareza jamais vistas na tradição dos hooffers que dançavam com os pés inteiros no chão. Ele nasceu em Richmond, Virgínia, e, em 1898, mudou-se para Nova York. Aos 31 anos ,foi reconhecido e contratado pela produção do show Blackbirds, no qual apresentava um número em que subia e descia uma escada sapateando. Mais tarde esse seria o marco de sua carreira.
Com o sucesso de Blackbirds, tornou-se respeitado e passou a ser o primeiro negro a conquistar um papel na Broadway, em 1930, com o musical Brown Buddies. Ele também conquistou Hollywood (em 1932), onde liderou o primeiro casal interacial da história do cinema americano, contracenando com Shirley Temple, em The Little Colonel.
Nos Estados Unidos, maio é um mês em que se pode escolher quais apresentações, jams ou performances de tapdance quer ver. E no Brasil isso está virando tradição. A data aqui também é comemorada em grande estilo e, sobretudo, virou lei em 2007, passando a integrar o calendário das comemorações do Estado de São Paulo. A Lei nº14.347/07 do município de São Paulo reconhece o Dia Internacional do Sapateado no Brasil, bem como suas comemorações com destaque para o Sapateia São Paulo, da sapateadora, coreógrafa e musicista Christiane Matallo. 
Confira alguns eventos que serão realizados no Brasil para comemorar a data:

- Semana do Tap do Uai Q Dança | De 19 a 25 de maio | Uberlândia – MG | Aulas com: Caio Nunes, Giordano Pagotti, Kika Sampaio, Juliana Garcia, Leonardo Sandoval e Thiago Marcelino. Organização: Fernanda Bevilaqua. Mais informações pelo: http://www.danceuai.blogspot.com/

- Sorocaba Tap | De 27 a 29 de maio | Sorocaba – SP | Aulas com: Gisella Martins, Juliana Garcia e Roberta Forte e noite de apresentações e críticas. Organização: Iara Ramos. Mais informações: http://www.athenasacademia.com.br/
 
- Sá Pateia Brasília | De 27 a 29 de maio | Brasília – DF | Aulas com: Erick Gurierrez, além de apresentações, palestras e sessão de vídeo. Organização: Samanta Lemes. Mais informações: http://www.studiosapateia.blogspot.com/

- Sapateia São Paulo | Dias 18 e 19 de junho | São Paulo – SP | Aulas com: Samuel Faez, Cinthia Villas Boas, Patrícia Stellet e Luizz Baldijão, além de apresentações no parque do Ibirapuera. Organização: Christiane Matallo. Mais informações:http://www.christiane-matallo.com.br/

sábado, 7 de maio de 2011

Giselle 3D: para formar plateias


Natalia Osipova e Leonid Sarafanov em Giselle | Divulgação

 
Por Marcela Benvegnu

Renato* deve ter uns 35 anos. Talvez ele nunca tenha visto um balé de repertório ao vivo, porém, era uma das mais de 350 pessoas que lotavam a sala 5, do Shopping Jardim Sul, em São Paulo, na tarde de hoje. Apesar de não ter noção alguma da  história, ele pagou R$ 60 para assistir a um balé no cinema. Sim, no cinema. A UCI trouxe exclusivamente para o Brasil o primeiro balé em terceira dimensão do mundo: Giselle 3D, que fica em cartaz somente até amanhã, domingo, 8, com interpretação da Companhia do Teatro Mariinsky, tendo como solistas Natalia Osipova e Leonid Sarafanov e direção artística de Valery Gergiev.
 
Fator interessante nessa nova forma de divulgar a dança (se é assim que podemos chamar) é o público que valida o preço e esgota os ingressos da atração. A plateia quer conhecer a dança motivada pela inovação do 3D. Mas  a dança é mais forte do que a inovação, caso contrário, o público poderia optar por assistir Rio, de Carlos Saldanha, também 3D e em cartaz nos cinemas. Por falar na versão, ela é realmente fascinante. A sensação que o espectador tem é de estar sentado no palco assistindo ao balé do lado das intérpretes. Os detalhes saltam aos olhos.
 
Renato falou durante todo o filme e, se os seus comentários não fossem interessantes, talvez ele tivesse incomodado (e muito) quem estava ao seu lado. Sua grande preocupação era descobrir o nome da companhia que estava dançando e se Giselle estava ou não morta no segundo ato. Impossível não prestar atenção para tentar entender a forma como ele iria interpretar uma das maiores obras de repertório do mundo sem conhecê-la. 
 
Ele também ficou impressionado com a sequência clássica do segundo ato do balé, no qual as bailarinas atravessam o palco por meio de arabesques. “A perna delas fica dura”, comentou com a namorada. E entre tentativas de descobrir a narrativa e entender a pantomima, no final ele disse para ela: “Agora temos que ver ao vivo”. Pronto, estava aí a missão cumprida do filme-balé.  Formar plateia para dança. A história estava agora em segundo plano porque o que o balé conseguiu foi incitar sua vontade em ir a uma sala de espetáculo para assistir dança ao vivo, independentemente do estilo, e, na maioria dos casos, pagando muito mais barato. 

Natalia Osipova em Giselle | Divulgação
A INTERPRETAÇÃO – A safra de novos solistas do Mariinsky está cada vez mais jovem e forte. Quem viu Natalia Osipova, em Dom Quixote, no Festival de Dança de Joinville (a crítica que escrevi na época pode ser lida aqui) em 2008, se surpreende com ela em Giselle. Seu modo afetado e ainda juvenil deu lugar a uma personagem com carga dramática de peso. A jovem de 26 anos se revelou uma bailarina expressiva e tecnicamente bem trabalhada. Sua cena da loucura (no primeiro ato do balé) chama atenção pela interpretação. Ela, que entrou no Bolshoi em 2004 como integrante do corpo de baile, é hoje uma das primeiras-bailarinas da companhia. 

Osipova se sobressai também por conta do bom partner, Leonid Sarafanov, que interpreta Albrecht. O jovem bailarino se formou pela Kiev State School of Choreography e entrou no Mariinsky em 2002. Com uma técnica impecável, suas baterias e variações fazem o espectador ajustar o óculos 3D para realmente ter a certeza de estar vendo aquilo. Sarafanov é preciso, fluído e o tempo vai lhe dar uma interpretação um pouco mais madura.  O corpo de baile fez jus ao nome da companhia. Um único e grande corpo na cena.  Infelizmente nos créditos finais do filme, o nome dessas bailarinas não aparece e não se sabe ali, quem é quem.

O BALÉ – Giselle é um balé do período romântico, que foi coreografado por Jules Perrot (1810-1892) e Jean Coralli (1779-1854), com música de Adolphe Adam (1803-1856) e libreto de Théophile Gautier (1811-1872). Estreou em 1841, em Paris, e é dividido em dois atos, nos quais o realismo cotidiano dialoga com seres imateriais. O primeiro ato apresenta Giselle, uma jovem que vive em um vilarejo nos campos da França com sua mãe Bertha e, apesar de namorar Hilarion, se apaixona por Albrecht, um nobre disfarçado de camponês. Quando descobre a mentira, Giselle fica inconsolável e morre.  No segundo ato, o amor eterno da garota pelo nobre, que a noite visita seu túmulo, o salva de ter seu espírito tomado pelas willis, que são as mulheres que morreram antes do dia de seus casamentos. Sempre que um rapaz se aproxima, elas o obrigam a dançar até a morte. Na vez de Albrecht, Giselle dança em seu lugar, quebra o encanto das willis e o perdoa.
*Renato é um nome fictício, porém, a situação foi real.