Mostrando postagens com marcador fotografia de dança. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador fotografia de dança. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Instante da dança IV

Por Flávia Fontes Oliveira
Reginaldo Azevedo é quase unânime, quem dança ou dançou já deve ter sido fotografado por ele. O engraçado é que, apesar de reconhecido pelo trabalho, poucos o reconhecem pessoalmente - está sempre escondido pelas câmeras. Para quem não sabe, ele assina Raphoto e tem um site com muitas novidades de dança (www.raphoto.com.br). Há 25 anos registrando esta arte, ele acompanhou o movimento da dança no Brasil. Fotografou alguns artistas e companhias consagradas como Ana Botafogo, Cecília Kerche, Luis Arrieta, Balé da Ópera de Paris, Balé da Cidade, Cisne Negro Cia de Dança, São Paulo Companhia de Dança entre muitos outros

Suas fotos estão publicadas em veículos de todo país e em livros de dança. Atualmente, acompanha o Passo de Arte e seu desdobramento internacional o Youth America Grand Prix. “Considero estes dois festivais um dos mais importantes pólos de integração de jovens bailarinos com profissionais do Brasil e do mundo, criando aí uma conexão com o mercado externo, já que o país não oferece muito essa condição”. A seguir, ele conta um pouco mais sobre sua ideia por trás das câmeras.

O que você gosta de fotografar na dança?
Reginaldo: Alem da movimentação, gosto de captar a interpretação dos bailarinos, sinto que é neste momento que eles conseguem passar para o publico a emoção do personagem e colocam ali um pouco do seu ser

Por que resolveu fotografar dança?
Reginaldo: Já era fotógrafo e um amigo fotógrafo de dança, Thomas de Paz, me convidou para ajudá-lo em um trabalho, acabei me apaixonando pela dança, acho que a música, o movimento, o falar sem expressar palavras me cativaram e tem feito eu ficar por tantos anos fazendo isso.

Para você, a fotografia ajuda a construir a história da dança?
Reginaldo: Depois de ver tantos movimentos coreográficos, penso que a dança não só constrói sua historia como conta a trajetória da raça humana de uma forma diferente, ela coloca o sentimento que está sendo vivido naquele período e o transforma em comunicação visual, auditiva, nos levando a uma nova reflexão. Ela nos tira do momento atual e nos transporta por sensações que às vezes se encontram adormecidas em nosso cotidiano.

Outros olhares sobre a dança aqui mesmo na Revista de Dança com João Caldas, Silvia Machado e Arnaldo J.G. Torres

terça-feira, 10 de maio de 2011

Instante da dança III

Por Flávia Fontes Oliveira

Quem conhece as fotos de João Caldas sabe que elas primam pela delicada combinação entre nitidez e emoção da cena. Ele, que coloca como ponto fundamental de sua carreira o encontro com os artistas da encenação de Clara Crocodilo, em 1981, a partir da trilha de Arrigo Barnabé e direção de Lala Deheinzelin, gosta dos desafios do palco, quando espetáculos se aproximam de várias linguagens, como IRIBIRI (1982), dirigido e concebido por Francisco Medeiros, José Rubens Siqueira e Sônia Mota, para a Cisne Negro Cia de Dança, em suas palavras “uma experiência nova e desafiadora de misturar teatro e dança”.

Trabalhou como fotógrafo no Centro Cultural São Paulo, documentando as áreas de Artes Cênicas e Artes Plásticas, o que lhe garantiu prática de fotografia de palco. Também foi repórter fotográfico do jornal Folha de S.Paulo, de 1985 a 1987, onde passou por todas as editorias.
Há mais de 20 anos, trabalha em seu estúdio, em São Paulo.  Fotografa regularmente para alguns artistas e companhias de dança como a São Paulo Companhia de Dança, Célia Gouvea, Marta Soares, entre outros.

Mesmo sem conhecê-lo, muitos já viram suas fotos de dança espalhadas em catágolos, programas e jornais ao longo de mais de 30 anos de trabalho. Dando sequência às entrevistas com estes profissionais que alimentam a cena brasileira, ele conta um pouco sobre seu olhar e a dança.

Cena de Clara Crocodilo, 1981,
especial na carreira do fotógrafo
O que te seduziu para começar a fotografar dança?
Na verdade, o que me seduz é o palco e tudo o que acontece nele. O marco da minha carreira de fotógrafo de palco foi em julho de 1981, na estreia do espetáculo Clara Crocodilo, dirigido por Lala Deheinzelin, que considero um espetáculo completo, pois tinha dança, teatro, música e performance. Conheci e acompanhei o trabalho do Klauss Vianna que fazia a coreografia e toda a preparação corporal do elenco. No Clara Crocodilo fiz parte da equipe e participei do processo de criação e montagem graças ao meu irmão e ator Renato Caldas, que era parte do elenco e me convidou para fotografar a montagem. Participar deste espetáculo marcante mudou minha vida, fiquei “contaminado” pelo palco, pelo teatro e pela dança.

Na dança, o que é preciso captar além do movimento?
A emoção e o sentimento ao assistir o espetáculo ao vivo no teatro, esse é um grande desafio da fotografia de dança. É difícil captar o movimento e, na foto de dança, é fundamental que o fotógrafo, além de ter capacidade técnica de fazer um bom registro, ele conheça a dança. É preciso entender a coreografia, escutar a música e ter o mesmo ritmo dos bailarinos. O tempo da foto de dança leva algum tempo para aprender, o fotógrafo também precisa treinar, ensaiar e repetir, repetir, repetir. Conhecer os movimentos, os passos e a própria coreografia ajudam muito, tudo isso aliado ao domínio técnico do equipamento fotográfico e de todos os recursos que ele oferece.

A lente transforma a dança?
Prefiro pensar que a fotografia transforma a dança e que o fotógrafo e sua lente recortam a dança em fragmentos que tentam representar o todo do espetáculo. A dança é que transforma o espectador. A energia, a potência dos bailarinos, a delicadeza e a beleza das bailarinas com a música e a luz deixam a alma do espectador leve e admirada.
Dirigirdo por Lala Deheinzelin, Clara Crocodilo
unia teatro, música, dança e performance
Outros olhares sobre a dança e a fotografia em Instante da dança I, com Sílvia Machado, e Instante da dança II, com Arnaldo J.G. Torres.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Instante da dança II


Por Flávia Fontes Oliveira

Arnaldo Torres
Arnaldo J.G. Torres conviveu com a dança e a fotografia desde a adolescência. Aos 12 anos, ganhou a primeira câmera do pai. Aos 15, descobriu a dança. Dançou durante 10 anos com o Grupo de Danças Folclóricas da UFPB (Universidade Federal da Paraíba), apresentando-se no Brasil e em algumas cidades da Europa e da América Latina.
Em 1980, voltou a se dedicar a fotografias, montou estúdio em João Pessoa, fez registros importantes da cena nordestina. Desde 1996 está em São Paulo, onde já trabalhou com diversas companhias e artistas da dança.

Para esta entrevista, ele selecionou duas fotos importantes: a primeira vez que fotografou o Ballet Stagium, em 1993, e Conjunção, de 2005, com Ivonice Satie e Luis Arrieta, feitas do palco, durante o espetáculo, ouvindo a respiração dos artistas. A seguir ele conta um pouco de seu olhar sobre a dança. 

Conjunção com Luis Arrieta e Ivonice Satie, sentindo
a respiração dos artistas
O que é importante olhar quando se fotografa dança?
Arnaldo J.G Torres: Eu procuro o olhar do coreógrafo e me coloco na posição de retratar sua obra pelo ponto de vista do qual foi criada, por isso sempre me posiciono no centro do palco. Procuro captar o ápice dos movimentos e o timing para isto tem que ser preciso, não pode ser nem antes nem depois, tem que ser no ápice!
Penso também no enquadramento, tendo o cuidado de não deixar de fora o tablado do palco para dar a noção exata do bailarino em relação ao espaço. Não que isso seja uma regra, em alguns momentos, preciso dar ênfase às expressões dos bailarinos, mas nos saltos preciso do tablado como referência da altura que o bailarino alcançou. Depois, é o sentimento que move a câmera e passo a acompanhar os movimentos que mais me atraem, como se minha câmera dançasse junto com os bailarinos através dos movimentos da minha mão.
   
Para você, qual o diálogo entre a fotografia e a dança?

A primeira foto do Ballet Stagium, em Recife, em 1993
com a coreografia Luminescência, de Décio Otero
 Arnaldo J.G. Torres: Penso que o diálogo fundamental é com a importância de construir a própria historia da dança. Já ouvi de inúmeros profissionais da dança reclamações por não guardarem registros de seus trabalhos. Por outro lado, para mim, esta foi uma forma de continuar próximo à dança quando desci do palco.
Me encanta também o poder da fotografia de eternizar o movimento na dança, que é único e fugaz. Além disso, a imagem registra e congela o movimento, oferecendo uma contribuição no sentido de correção do trabalho dos bailarinos, pois, apesar de o espelho mostrar o movimento, muitas vezes o bailarino só observa que sua mão esta torta ou algo parecido na fotografia.

Como fotógrafo, o que te toca na dança?
Arnaldo J.G. Torres: Eu fui encantado pela dança desde a mais tenra idade. Quando criança ainda, meus pais me levavam para o carnaval e aqueles movimentos dos “cabloquinhos”, dos maracatus, do frevo, das danças populares enfim, já mexiam comigo de uma forma que não sei explicar através de palavras.
Já na adolescência entrei para o grupo de danças do Liceu paraibano e viajei o mundo dançando. Permaneci durante muitos anos neste grupo, e depois que a maioria dos seus elementos entrou para a UFPB, a universidade criou o Grupo de Danças da Universidade Federal da Paraíba que existe até hoje. A dança continua me emocionando, é minha maior paixão.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Reportagem | O instante da dança I

Por Flávia Fontes Oliveira

Apenas um clique e o movimento eternizado. As fotos nos fazem sonhar com a dança. Entre o olhar e a rapidez do que se passa na cena, os fotógrafos nos ajudam a delinear a dança e a sua história.
Convidamos alguns fotógrafos, craques no manejo da câmera, a nos responder como é olhar a dança através das lentes. Também nos enviaram fotos que os tocam de alguma maneira. Durante a semana, um a um, eles estão na cena.  Esperamos que seja uma longa série.
Para começar, Sílvia Machado.


Bailarina do Balé Municipal de São Paulo de 1989 a 2009, começou a fotografar em 2003, quando realizou a primeira exposição no Teatro Municipal de São Paulo. Não parou mais, a cada temporada, procurava mostrar os registros ao público. Suas fotos estão carregadas da mesma emoção de estar no palco. Já fotografou grandes coreógrafos internacionais, como Ohad Naharin, Angelin Preljocaj, Itzik Galili, entre outros. “E os nossos brasileiros: Jorge Garcia, Henrique Rodovalho, Luis Arrieta, Luis Fernando Bongiovanni, Sandro Borelli, falando apenas de alguns”, como diz.



A bailarina e fotógrafa Sílvia Machado



Em menos de dez anos de trabalho, tem currículo extenso, trabalhou para inúmeros artistas e companhias como São Paulo Companhia de Dança, Cisne Negro Cia de Dança, Quasar, J.Gar.Cia, Cia Sociedade Masculina, Cia Siameses, Cia de Danças de Diadema, Sopro Cia de Dança Instituto Brincante, Antônio Nóbrega (shows e espetáculos de dança), Hermes Dance (Suíça), Grupo 1º Ato (BH), Dança em Pauta 2006 e 2007, Coccoon Dance Company, Sônia Mota e muitos outros.

Também participou de livros, exposições e outros publicações. Esperamos vê-la muito mais.

Cena de Naturalmente, 2009, de Antonio Nóbrega.
Entre os registros favoritos da fotógrafa

Existe emoção ao fotografar um espetáculo?
Sílvia Machado: Para mim, é sempre uma emoção estar nesse universo do artista. Gosto de chegar antes do espetáculo, sentar na plateia e “sentir” o ambiente, a energia dos artistas, sentir o cheiro do palco, do linóleo, andar pelas coxias, ouvir e ver a técnica trabalhando, finalizando os efeitos de luz, equalizando o som, dando os retoques finais. Chego a sentir o mesmo friozinho na barriga que tinha quando era eu a estar na coxia esperando o momento de entrar em cena. E, de certa maneira, sigo até hoje um ritual semelhante ao dos bailarinos no momento que antecede o espetáculo, fico em silêncio por alguns minutos, comungo a roda de concentração, mesmo de longe, batendo três vezes no chão do palco, falando “merda” comigo mesma (risos).

Como bailarina, o que gosta de captar na dança?
Sílvia Machado: A emoção, sempre. Cada gesto de um bailarino vem carregado de sensações e intenções. Apesar dos treinos exaustivos para que o movimento saia perfeito, o que difere um bailarino de outro, na cena, é o artista contido em cada gesto, em cada olhar.
Às vezes, brinco de captar os saltos no ápice várias vezes, mas, mesmo os melhores saltos, são aqueles que vêm carregados de emoção e intenção, que são realizados com a energia perfeita.
Quando olhamos uma fotografia e dizemos “nossa, que linda!!”, em geral, o que nos chama a atenção não é o salto perfeito ou o passo correto. O que torna esta foto diferente é a “maneira” como o artista realizou aquele salto ou aquele gesto, e este momento é o meu momento predileto, aquele em que comungo com o artista. Este momento me preenche a alma. Os momentos mais simples são, na maioria das vezes, os mais bonitos.


Uma de suas fotos mais antigas. Queens,
Balé da Cidade de São Paulo, de Ohad Naharin, 2004