terça-feira, 24 de maio de 2011

Programe-se

Para esquentar a semana. Dicas pelo Brasil.

1 – DEPOIMENTO PÚBLICO CÉLIA GOUVÊA, São Paulo Companhia de Dança (São Paulo. Célia Gouvêa revisita sua carreira em depoimento público a Inês Bogéa e será usado como referência para o documentário da artista. O evento faz parte do programa Figuras da Dança, que já tem mais 15 filmes editados e distribuídos para todo Brasil.
Classificação: livre.
Auditório Franco Zampari
Avenida Tiradentes, 4511 – ao lado do Metrô Tiradentes
Dia 26, 20h  
Ingresso: gratuito. Inscrição: memória@spcd.com.br

2 - TRILHA, Grupo Dans la Danse (Araras). Dirigido por Gisele Bellot, o grupo apresenta a coreografia Trilha selecionada pelo ProAC, Programa de Ação
Cultural  - Apoio a novas produções de dança no Estado de São Paulo 2010.
Classificação: livre
Teatro Maestro Francisco Paulo Russo
Av. Dona Renata, 401
Dia 28, 20h
Ingressos: R$5,00

3 - NEW YORK, NEW YORK - O MUSICAL (São Paulo). Produção inédita, adaptação do livro homônimo de Earl Mac Rauch, de 1977, e narra a história de amor entre a cantora Francine Evans e o saxofonista Johnny Boyle. Ambientada na América do pós-guerra, o musical tem direção de José Possi Neto, com os atores Alessandra Maestrini e Juan Alba, com participações especiais da atriz/cantora Simone Gutierrez e da cantora Julianne Daud. No elenco, 13 bailarinos, 16 atores/cantores, 25 músicos.
Classificação: 12 anos.
Teatro Bradesco
Rua Turiassu, 2100
Piso Perdizes do Bourbon Shopping - São Paulo
Horário: Qui. 21h, Sex. 21h30min, Sáb. 17h e 21h, Dom. 19h
Ingressos: de R$ 20,00 a R$ 170,00

4 – TATYANA, Cia de Dança Deborah Colker (Rio de Janeiro). Estreia oficial da nova coreografia, baseada no romance Evguêni Oniéguin, de Aleksandr Púchkin (1799-1837).
Classificação: livre
Theatro Municipal do Rio de Janeiro
Rua Manuel Carvalho - Centro
Dias 25, 26 e 27, 21h | dia 28, 1h e 21h | dia 29 17h
Ingressos: R$ 10,00 e R$ 20,00

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Um olhar sobre Balanchine-Robbins

 
Apollo, de Balanchine | Divulgação
Por Marcela Benvegnu, de Nova York

O David H. Koch Theatre, no Metropolian Opera House, em Nova York, estava completamente lotado na última quarta-feira, dia 18. Óbvio. Não é sempre que o New York City Ballet (NYCB) coloca lado a lado, em um único programa, obras de seus dois coreógrafos fundadores: George Balanchine (1904-1983) e Jerome Robbins (1918-1998) - a companhia foi fundada por Balanchine e Lincoln Kirstein (1907-1996). De Balanchine apresentaram Apollo (1928) e La Sonnambula (1946), de Robbins Afternoon of a Faun (1953) e Antique Epigraphs (1984). Resumindo: mais do que um programa de primeira, na verdade, um motivo para se entender um pouco mais de história da dança.

Pouco antes da apresentação, um grupo de aproximadamente 50 pessoas participou do que eles titulam de painel de discussão, um projeto de formação de plateia no qual, por aproximadamente 15 minutos, um representante do NYCB apresenta detalhes dos programas da noite. A ação criada há muitos anos pela Companhia pretende que o público não assista somente uma sequência de passos, mas entenda cada obra dentro de seu contexto histórico e possa criar diálogos entre os programas da companhia.

Criada com o nome de Apollon Musagète para os Balés Russes, de Sergei Diaghilev (1872-1929), com música de Igor Stravinsky (1882-1971), Apollo é o mais antigo balé de Balanchine presente no repertório do New York City Ballet – a companhia o estreou em 1951. Os bailarinos o executam com propriedade, os corpos têm o idioma Balanchine; logo, a movimentação é natural. Balanchine dialogava o tempo todo entre o simples e o complexo. Uma de suas marcas: a guirlanda de corpos e braços em quinta posição está presente nas torções e inclinações dos intérpretes. As bailarinas são precisas, mas Chase Finlay (Apollo) é quem nos imobiliza. Sua força cênica faz com que os olhos se percam.


Antique Epigraphs, de Robbins | Divulgação

Ainda de Balanchine, La Sonnambula nos leva para o mundo dos musicais. Ao assistir a esta obra,  podemos entender hoje como muitas coisas se articulam na cena e como reproduzimos formas coreográficas, às vezes, sem saber de onde elas vêm. Balanchine coreografou este balé em 1946 – com o nome de Night Shadow – para o Ballet Russe de Monte Carlo sobre a música de Vittorio Rieti, baseada nas óperas de Vicenzo Bellini. A peça estreou pelo NYCB em 1960. A história de mistério e de amor entre uma sonâmbula e um poeta é um verdadeiro baile, com direito a minueto, dança de pares e palco lotado por bailarinos impecáveis em técnica. Os cenários e figurinos de Alain Vaes chamam atenção pela beleza, e a intensidade de luz de Mark Stanley dá à coreografia a dramaturgia de cada momento da cena. Um detalhe que chama atenção e faz diferença no resultado: os pés esticados dos bailarinos nos sapatos de salto e a beleza no acabamento dos movimentos. Pela tradição NYCB, não poderia ser diferente.

No meio das peças de Balanchine, como um convite ao estudo da vida de Jerome Robbins, foram apresentadas, respectivamente: Afternoon of a Faun e Antique Epigraphs. A releitura de Robbins para Prèlude à L’aprés-midi d’un Faune (1912), de Vaslav Nijinsky (1890-1950), sobre música homônima de Claude Debussy (1862-1918) é primorosa. Se Nijinsky chocou Paris na época de sua criação por levar ao palco um balé em que o erotismo estava presente, Robbins fez exatamente o contrário. Ele leva o enredo para dentro da sala de ensaio, reconstruída na caixa-preta por Jean Rosenthal, na qual os espelhos são grandes janelas azuis, um fauno (Craig Hall) delicado e contido, que sonha com um amor impossível. Sua ninfa é uma bailarina (Janie Taylor) de cabelos longos e soltos, que dança para ele e com ele. Os intérpretes são longilíneos e, sobretudo, técnicos e o pas de deux é tão bem construído que os oito minutos passam como se fossem segundos. 
La Sonnambula, de Balanchine
Divulgação
Mais do que Afternoon of a Faun, Antique Epigraphs dialoga de forma direta com o fauno de Nijinsky por conta dos movimentos lembrarem imagens dos frisos gregos – a  a versão do fauno de 1912 foi inspirada nos frisos dos vasos gregos e nas imagens egípcias do Museu do Louvre. Este balé, também com música de Debussy, teve a música inspirada num poema (outra semelhança com a composição do fauno de Nijinsky, criada por conta do poema de Sthéphane Mallarmé) grego chamado Songs of Bilitis. O conjunto de oito intérpretes é forte. O movimento delineado dos braços chama atenção pela limpeza e também pela sincronia. Mais interessante é ver como Robbins transitava entre diferentes estilos de movimento sem choques – isso lhe garantiu grande reconhecimento e sua versatilidade passou a ser admirada. Ele, por exemplo, coreografou West Side Story, um dos grandes musicais da Broadway, em cartaz até hoje, no qual se configura como um grande corógrafo de jazz. Uma suíte deste musical será apresentada pelo NYCB na semana que vem num programa somente dedicado ao coreógrafo. Ah, sim. O NYCB faz jazz, tem aulas de jazz, ou melhor, dança jazz (também).

Nessa noite, mais do que o detalhe do movimento, o que salta aos olhos é a história. É preciso dizer que o programa do NYCB (a famosa revista chamada de Playbill) é o mais completo de todos do circuito da dança americana deste segmento por trazer a biografia dos coreógrafos e fundadores com datas de nascimento e morte e também a história contextualizada de cada uma das obras apresentadas. Muitas companhias apresentam Balanchine e Robbins, mas é preciso que o passado sobrevive e se reinventa no presente. É bom olhar para trás.


quinta-feira, 19 de maio de 2011

Entre o ABT de Herrera e Carreño: uma companhia jovem

Por Marcela Benvegnu, de Nova York


Paloma Herrera em Dom Quixote
Foto: Mira | © Copyright 2010 Ballet Theatre Foundation
Paloma Herrera entrou para o corpo de baile do American Ballet Theatre (ABT) aos 15 anos. Tornou-se solista aos 17, primeira-bailarina aos 19. Hoje, aos 35, ela sobe ao palco do Metropolitan Opera House, em Nova York, para comemorar 25 anos de carreira no ABT interpretando um dos mais famosos clássicos de repertório de todos os tempos: Dom Quixote, coreografia de Marius Petipa (1818-1910) e música de Ludwig Minkus (1826–1917). A noite de comemoração aconteceu na última terça-feira, 17 de maio.

Herrera dá vida a uma Kitri madura, o que faz determinadas cenas ganharem dramaticidade. Em contraponto, tem um toque de afetação que talvez possa ser relevado pela própria comemoração. A noite era dela e para ela. Dona de uma técnica de extrema qualidade, de linhas de pés e pernas perfeitas, ela abusa das sustentações e brinca com os giros e equilíbrios. Fica simples girar 24 fouetées sem titubear.

Nesta apresentação, José Manuel Carreño interpretou Basílio. Se a festa não fosse para Herrera, com certeza poderia ser para ele. Seus saltos congelavam no ar e suas sequências de 11 piruetas eram tão seguras que em alguns momentos ele ralentava o movimento de propósito. A orquestra regida Ormsby Wilkins o esperou em pausa para não perder o andamento.

Se por um lado Herrera e Carreños se destacam pela maturidade, o atual elenco do ABT (vale lembrar que um dos solistas da companhia é o brasileiro Marcelo Gomes) é jovem em todos os sentidos: idade, técnica e, sobretudo, dramaticidade. O corpo de baile contrasta com os solistas. Falta um pouco de harmonia nesse intervalo entre os grandes e o que vem por aí.

Quem chama atenção é Joseph Phillips, como o chefe do acampamento cigano, e Sarah Lane, como cupido. A variação de Phillips, remontada por Kevin McKenzie, diretor artístico do ABT, mostra toda sua versatilidade, força técnica e cênica. Ele é impecável. E a veloz e precisa Lane faz com que a plateia se arrume na cadeira para poder ver como ela é uma grande bailarina, mesmo tendo baixa estatura.

Impecável também foram os cenários assinados por Santo Loquasto. No terceiro ato, quando acontece o casamento entre Basílio e Kitri, dá vontade de pedir para que os bailarinos fiquem parados para poder olhar cada detalhe da vila retratada. Um exemplo é um tapete pendurado no teto ou mesmo a sujeira do telhado. Os figurinos, também de Loquasto, apesar de apresentarem cores muito vibrantes, tipicamente americanas, são trabalhados cuidadosamente em sua releitura. O vestido das sequidillas, com saia dupla pouco abaixo dos joelhos e levemente brilhante, é uma das mais lindas peças. Para completar, uma de suas mais importantes estrelas: a luz, de Natasha Katz. O desenho na cena era puro movimento. Coreografia de cores e climas que ajudaram – e muito – a plateia entrar na história.

O ABT trouxe ao palco um clássico, com os solistas “clássicos”, mas que precisa tornar homogêneo, ao menos nesta obra, o seu corpo de baile, ou seja, aqueles que fazem com que esses grandes nomes apareçam.
José Manuel Carreño em Dom Quixote
Foto: Roy Round | © Copyright 2010 Ballet Theatre Foundation


naBolsa | Tatiana Campani Klinger

Por Marcela Benvegnu
Estudos teóricos + professora de dança = Tatiana Campani Klinger | Foto: Eugênia Klinger  
“Batom, gloss, escova, uma latinha com vários elásticos e presilhas de cabelo, escova e pasta de dentes, espelhinho, óculos de sombra, celular, um pen drive, carteira, um par de meias com anti-derrapante por causa do pilates. As sapatilhas ficam na academia, pois tenho um armário lá.”

Tatiana Campani Klinger, 31, é bailarina. Pós-graduada em Estudos Contemporâneos em Dança pela UFBa e graduada em dança pela Faculdade de Artes do Paraná, FAP. É professora de balé clássico, contemporâneo e jazz da Academia Ensaio, de Rio Grande, Rio Grande do Sul. Também é instrutora de Pilates pelo Phisycalmind Institute.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Dois olhares sobre Green Door | Videodança


Vale a pena assistir a este videodança de Neda Ponzoni, Renzo Vasquez e Silvia Razuk. Infelizmente, ele não está no YouTube e não podemos postá-lo aqui, porém você pode conhecer os nossos olhares abaixo. Vale a pena ver.

Por Flávia Fontes Oliveira
Neste pequeno vídeo de dança, Green Door, um desafio, um vídeo-coreografia. Com recurso da edição, da fotografia e, claro, das intérpretes, ele dança. Isso me pareceu o mais interessante, nos espaços dos corpos, a cidade dança, participa dos intervalos, continuando o movimento.


Por Marcela Benvengu
Antes da imagem e do corpo, ou seja, antes do videodança: a música. É ela quem pontua a intensidade do movimento e de seus cortes em Green Door. A delicadeza do gesto. A mão. Os olhos. Ouvidos. A boca. Um toque. Pausa que se movimenta. Sinal de acesso. Porta para liberdade. Sentidos. 





Qual foi sua maior alegria na dança? Por quê?

Foram alguns raros e importantes momentos, quando entrei em especial conexão com o que dançava. Arrisco a concordar que a dança deve ser improvisada, deve mover-se antes da escrita. Quanto mais a fixamos, menos ela acontece a favor da sua “materialidade”.
Ainda sim, no dia a dia, busco por um estado de plenitude dentro desta escritura rígida. Acredito ser o desejo de todo bailarino atingir este estado. Por instantes de conexão que consigam ir além do mapa fixo e repetitivo que é uma coreografia. Acho determinante a conjugação de técnica, intuição e acaso nessa busca utópica e necessária.
Carolina Amares, 26, é bailarina do Grupo Corpo, dançou na DeAnima Ballet Contemporâneo, na Cia de Dança Deborah Colker e na São Paulo Companhia de Dança. Ela topou participar dessa série de peguntas para balarinos e artistas da dança. Foi a primeira. Sua desenvoltura, no palco e nas palavras, mostra as razões da escolha para inaugurar o espaço.  
Carolina Amares na primeira audição da
São Paulo Companhia de Dança  Divulgação SPCD

domingo, 15 de maio de 2011

Sapateado o mês inteiro

Por Marcela Benvegnu

Bill Bojangles: o sapateado na meia-ponta | Divulgação
Uma particularidade nessa nossa possível história da dança é que temos um dia para olhar (e comemorar) o tap dance, ou seja, o sapateado. A data do dia 25 de maio foi escolhida por ser o aniversário de Bill Bojangles Robinson (1878-1949), o precursor do estilo.
A contribuição de Bojangles para o sapateado foi muito valiosa e específica: ele levou o estilo para a meia-ponta, trazendo aos palcos uma leveza e clareza jamais vistas na tradição dos hooffers que dançavam com os pés inteiros no chão. Ele nasceu em Richmond, Virgínia, e, em 1898, mudou-se para Nova York. Aos 31 anos ,foi reconhecido e contratado pela produção do show Blackbirds, no qual apresentava um número em que subia e descia uma escada sapateando. Mais tarde esse seria o marco de sua carreira.
Com o sucesso de Blackbirds, tornou-se respeitado e passou a ser o primeiro negro a conquistar um papel na Broadway, em 1930, com o musical Brown Buddies. Ele também conquistou Hollywood (em 1932), onde liderou o primeiro casal interacial da história do cinema americano, contracenando com Shirley Temple, em The Little Colonel.
Nos Estados Unidos, maio é um mês em que se pode escolher quais apresentações, jams ou performances de tapdance quer ver. E no Brasil isso está virando tradição. A data aqui também é comemorada em grande estilo e, sobretudo, virou lei em 2007, passando a integrar o calendário das comemorações do Estado de São Paulo. A Lei nº14.347/07 do município de São Paulo reconhece o Dia Internacional do Sapateado no Brasil, bem como suas comemorações com destaque para o Sapateia São Paulo, da sapateadora, coreógrafa e musicista Christiane Matallo. 
Confira alguns eventos que serão realizados no Brasil para comemorar a data:

- Semana do Tap do Uai Q Dança | De 19 a 25 de maio | Uberlândia – MG | Aulas com: Caio Nunes, Giordano Pagotti, Kika Sampaio, Juliana Garcia, Leonardo Sandoval e Thiago Marcelino. Organização: Fernanda Bevilaqua. Mais informações pelo: http://www.danceuai.blogspot.com/

- Sorocaba Tap | De 27 a 29 de maio | Sorocaba – SP | Aulas com: Gisella Martins, Juliana Garcia e Roberta Forte e noite de apresentações e críticas. Organização: Iara Ramos. Mais informações: http://www.athenasacademia.com.br/
 
- Sá Pateia Brasília | De 27 a 29 de maio | Brasília – DF | Aulas com: Erick Gurierrez, além de apresentações, palestras e sessão de vídeo. Organização: Samanta Lemes. Mais informações: http://www.studiosapateia.blogspot.com/

- Sapateia São Paulo | Dias 18 e 19 de junho | São Paulo – SP | Aulas com: Samuel Faez, Cinthia Villas Boas, Patrícia Stellet e Luizz Baldijão, além de apresentações no parque do Ibirapuera. Organização: Christiane Matallo. Mais informações:http://www.christiane-matallo.com.br/

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Comentários sobre o Balé da Cidade de São Paulo


Por Flávia Fontes Oliveira

Cena de Paraíso Perdido | Divulgação
Em um de seus livros, Afterimages (Knopf, 1977), a crítica de dança americana Arlene Croce lembra que o crítico de dança leva de um espetáculo impressões que foram assimilados por seus órgãos de sentido. Eles não gravam fatos, ela frisa. Fiquei com a ideia em mente por conta do novo espetáculo do Balé da Cidade de São Paulo, Paraíso Perdido, do grego Andonis Foniadakis, que estreou no Sesc Vila Mariana, dia 5 de maio, por conta das percepções causadas por ele.

Ao partir dos quadros de pinturas de Hieronymus Bosch (1450-1516), Foniadakis procurou absorver a atmosfera das obras, assumindo o excessivo uso de elementos do pintor. Para isso, coloca intensidade e volume nas cenas, em que o profano e o religioso se debatem, por vezes, vertiginosamente.
Foniadakis é um encenador de olhar agudo, desenha o palco com o um grupo grande, cerca de 30 bailarinos, intercalando com momentos de duos, trios, solos. É um balé rápido e, nesse sentido, virtuoso. Os movimentos são, em grande medida, impulsionados pelos braços e exigem qualidade na execução. Não pode haver qualquer resquício de insegurança para tamanha agilidade. Não há esforço desnecessário para este elenco renovado, que se vê no desafio de criar um corpo para a nova gestão. E eles dão o recado. 
Nos 50 minutos de espetáculos, um tanto longos (o impacto seria provavelmente mais forte em menos tempo), bailarinos entram e saem da cena com a aflição do pecado. E essa aflição não cabe em silêncios, mistura-se a tensões sensuais, brutas e gritos. Quadro a quadro, encontramos nas cenas as referências a Bosch, com jogo de iluminação e figurinos, estes assinados por João Pimenta.
Uma coreografia contemporânea, como previa a nova diretora, Lara Pinheiro, utilizando o corpo em sua potencialidade de ferramenta. E no fim nos despedimos com essa sensação, que escapa um pouco pela entrada de figurinos pratas. Uma miragem?

terça-feira, 10 de maio de 2011

Instante da dança III

Por Flávia Fontes Oliveira

Quem conhece as fotos de João Caldas sabe que elas primam pela delicada combinação entre nitidez e emoção da cena. Ele, que coloca como ponto fundamental de sua carreira o encontro com os artistas da encenação de Clara Crocodilo, em 1981, a partir da trilha de Arrigo Barnabé e direção de Lala Deheinzelin, gosta dos desafios do palco, quando espetáculos se aproximam de várias linguagens, como IRIBIRI (1982), dirigido e concebido por Francisco Medeiros, José Rubens Siqueira e Sônia Mota, para a Cisne Negro Cia de Dança, em suas palavras “uma experiência nova e desafiadora de misturar teatro e dança”.

Trabalhou como fotógrafo no Centro Cultural São Paulo, documentando as áreas de Artes Cênicas e Artes Plásticas, o que lhe garantiu prática de fotografia de palco. Também foi repórter fotográfico do jornal Folha de S.Paulo, de 1985 a 1987, onde passou por todas as editorias.
Há mais de 20 anos, trabalha em seu estúdio, em São Paulo.  Fotografa regularmente para alguns artistas e companhias de dança como a São Paulo Companhia de Dança, Célia Gouvea, Marta Soares, entre outros.

Mesmo sem conhecê-lo, muitos já viram suas fotos de dança espalhadas em catágolos, programas e jornais ao longo de mais de 30 anos de trabalho. Dando sequência às entrevistas com estes profissionais que alimentam a cena brasileira, ele conta um pouco sobre seu olhar e a dança.

Cena de Clara Crocodilo, 1981,
especial na carreira do fotógrafo
O que te seduziu para começar a fotografar dança?
Na verdade, o que me seduz é o palco e tudo o que acontece nele. O marco da minha carreira de fotógrafo de palco foi em julho de 1981, na estreia do espetáculo Clara Crocodilo, dirigido por Lala Deheinzelin, que considero um espetáculo completo, pois tinha dança, teatro, música e performance. Conheci e acompanhei o trabalho do Klauss Vianna que fazia a coreografia e toda a preparação corporal do elenco. No Clara Crocodilo fiz parte da equipe e participei do processo de criação e montagem graças ao meu irmão e ator Renato Caldas, que era parte do elenco e me convidou para fotografar a montagem. Participar deste espetáculo marcante mudou minha vida, fiquei “contaminado” pelo palco, pelo teatro e pela dança.

Na dança, o que é preciso captar além do movimento?
A emoção e o sentimento ao assistir o espetáculo ao vivo no teatro, esse é um grande desafio da fotografia de dança. É difícil captar o movimento e, na foto de dança, é fundamental que o fotógrafo, além de ter capacidade técnica de fazer um bom registro, ele conheça a dança. É preciso entender a coreografia, escutar a música e ter o mesmo ritmo dos bailarinos. O tempo da foto de dança leva algum tempo para aprender, o fotógrafo também precisa treinar, ensaiar e repetir, repetir, repetir. Conhecer os movimentos, os passos e a própria coreografia ajudam muito, tudo isso aliado ao domínio técnico do equipamento fotográfico e de todos os recursos que ele oferece.

A lente transforma a dança?
Prefiro pensar que a fotografia transforma a dança e que o fotógrafo e sua lente recortam a dança em fragmentos que tentam representar o todo do espetáculo. A dança é que transforma o espectador. A energia, a potência dos bailarinos, a delicadeza e a beleza das bailarinas com a música e a luz deixam a alma do espectador leve e admirada.
Dirigirdo por Lala Deheinzelin, Clara Crocodilo
unia teatro, música, dança e performance
Outros olhares sobre a dança e a fotografia em Instante da dança I, com Sílvia Machado, e Instante da dança II, com Arnaldo J.G. Torres.

sábado, 7 de maio de 2011

Giselle 3D: para formar plateias


Natalia Osipova e Leonid Sarafanov em Giselle | Divulgação

 
Por Marcela Benvegnu

Renato* deve ter uns 35 anos. Talvez ele nunca tenha visto um balé de repertório ao vivo, porém, era uma das mais de 350 pessoas que lotavam a sala 5, do Shopping Jardim Sul, em São Paulo, na tarde de hoje. Apesar de não ter noção alguma da  história, ele pagou R$ 60 para assistir a um balé no cinema. Sim, no cinema. A UCI trouxe exclusivamente para o Brasil o primeiro balé em terceira dimensão do mundo: Giselle 3D, que fica em cartaz somente até amanhã, domingo, 8, com interpretação da Companhia do Teatro Mariinsky, tendo como solistas Natalia Osipova e Leonid Sarafanov e direção artística de Valery Gergiev.
 
Fator interessante nessa nova forma de divulgar a dança (se é assim que podemos chamar) é o público que valida o preço e esgota os ingressos da atração. A plateia quer conhecer a dança motivada pela inovação do 3D. Mas  a dança é mais forte do que a inovação, caso contrário, o público poderia optar por assistir Rio, de Carlos Saldanha, também 3D e em cartaz nos cinemas. Por falar na versão, ela é realmente fascinante. A sensação que o espectador tem é de estar sentado no palco assistindo ao balé do lado das intérpretes. Os detalhes saltam aos olhos.
 
Renato falou durante todo o filme e, se os seus comentários não fossem interessantes, talvez ele tivesse incomodado (e muito) quem estava ao seu lado. Sua grande preocupação era descobrir o nome da companhia que estava dançando e se Giselle estava ou não morta no segundo ato. Impossível não prestar atenção para tentar entender a forma como ele iria interpretar uma das maiores obras de repertório do mundo sem conhecê-la. 
 
Ele também ficou impressionado com a sequência clássica do segundo ato do balé, no qual as bailarinas atravessam o palco por meio de arabesques. “A perna delas fica dura”, comentou com a namorada. E entre tentativas de descobrir a narrativa e entender a pantomima, no final ele disse para ela: “Agora temos que ver ao vivo”. Pronto, estava aí a missão cumprida do filme-balé.  Formar plateia para dança. A história estava agora em segundo plano porque o que o balé conseguiu foi incitar sua vontade em ir a uma sala de espetáculo para assistir dança ao vivo, independentemente do estilo, e, na maioria dos casos, pagando muito mais barato. 

Natalia Osipova em Giselle | Divulgação
A INTERPRETAÇÃO – A safra de novos solistas do Mariinsky está cada vez mais jovem e forte. Quem viu Natalia Osipova, em Dom Quixote, no Festival de Dança de Joinville (a crítica que escrevi na época pode ser lida aqui) em 2008, se surpreende com ela em Giselle. Seu modo afetado e ainda juvenil deu lugar a uma personagem com carga dramática de peso. A jovem de 26 anos se revelou uma bailarina expressiva e tecnicamente bem trabalhada. Sua cena da loucura (no primeiro ato do balé) chama atenção pela interpretação. Ela, que entrou no Bolshoi em 2004 como integrante do corpo de baile, é hoje uma das primeiras-bailarinas da companhia. 

Osipova se sobressai também por conta do bom partner, Leonid Sarafanov, que interpreta Albrecht. O jovem bailarino se formou pela Kiev State School of Choreography e entrou no Mariinsky em 2002. Com uma técnica impecável, suas baterias e variações fazem o espectador ajustar o óculos 3D para realmente ter a certeza de estar vendo aquilo. Sarafanov é preciso, fluído e o tempo vai lhe dar uma interpretação um pouco mais madura.  O corpo de baile fez jus ao nome da companhia. Um único e grande corpo na cena.  Infelizmente nos créditos finais do filme, o nome dessas bailarinas não aparece e não se sabe ali, quem é quem.

O BALÉ – Giselle é um balé do período romântico, que foi coreografado por Jules Perrot (1810-1892) e Jean Coralli (1779-1854), com música de Adolphe Adam (1803-1856) e libreto de Théophile Gautier (1811-1872). Estreou em 1841, em Paris, e é dividido em dois atos, nos quais o realismo cotidiano dialoga com seres imateriais. O primeiro ato apresenta Giselle, uma jovem que vive em um vilarejo nos campos da França com sua mãe Bertha e, apesar de namorar Hilarion, se apaixona por Albrecht, um nobre disfarçado de camponês. Quando descobre a mentira, Giselle fica inconsolável e morre.  No segundo ato, o amor eterno da garota pelo nobre, que a noite visita seu túmulo, o salva de ter seu espírito tomado pelas willis, que são as mulheres que morreram antes do dia de seus casamentos. Sempre que um rapaz se aproxima, elas o obrigam a dançar até a morte. Na vez de Albrecht, Giselle dança em seu lugar, quebra o encanto das willis e o perdoa.
*Renato é um nome fictício, porém, a situação foi real.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Joinville em Paulínia

Por Marcela Benvegnu

Vencedor clássico em 2010
Foto: Divulgação | Alceu Bett

Outubro com cara de julho. Talvez seja assim a nova ação criada pelo Festival de Dança de Joinville que este ano chega à sua 29ª edição. Entre 12 e 16 de outubro, acontece em Paulínia, o Festival de Dança de Joinville em Paulínia – Grand Prix Brasil. Serão cinco noites, abertura, três de competições e uma dos campeões, na qual os premiados em 1º, 2º e 3º lugares em todos os gêneros no Festival de 2011, que acontece entre 20 e 30 de julho, terão oportunidade de disputar outro grande prêmio: o melhor entre os melhores de Joinville.

O modelo não será diferente do grande festival. O Prix acontecerá no palco do Theatro Municipal de Paulínia e terá um júri composto por importantes nomes da dança, além de workshops, Feira da Sapatilha e apresentações em Palcos Abertos. Os vencedores do Prix terão vaga garantida no próximo Festival de Dança de Joinville, com todas as despesas pagas. Pelo visto, os 30 anos do Festival prometem surpresas.

O Festival de Dança de Joinville em Paulínia – Grand Prix Brasil é uma parceria do Instituto Festival de Dança de Joinville, do projeto Paulínia ao Vivo e da Secretaria de Cultura de Paulínia.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Viagem ao Paraíso Perdido

Por Flávia Fontes Oliveira
 
Cena de Paraíso Perdido, de Andonis
Foto: divulgação | Jorge Etecheber
A primeira estreia do ano do Balé da Cidade de São Paulo equilibra desafio técnico e artístico na proposta do coreógrafo grego Andonis Foniadakis. Paraíso Perdido teve como ponto de partida as pinturas de Hieronymus Bosch (1450-1516) e será apresentada no Sesc Vila Mariana, entre os dias 5 e 8 de maio, com um elenco de 30 bailarinos.

Foniadakis trabalha com a companhia pela primeira vez e trouxe uma linguagem que exigiu bastante do grupo. “É uma linguagem de movimentos extremamente fluidos, fluxos, que não identifica acentos ou formas”, diz Lara Pinheiro, diretora artística do Balé da Cidade. Ela ainda completa que não há nenhum movimento óbvio e, por isso, as sequências precisam de lapidação o tempo inteiro. É uma criação que exige “qualidade, para além da técnica”, nas suas palavras.

De Bosch, Foniadakis trouxe o despertar de sentidos de suas criações, que usa engenhosa pintura, com ilustrações complexas, de sugestões sensuais, para tratar, em grande parte, de conceitos e moral religiosas. Há sempre abundância de cenas, cores e dualidades em suas obras mais famosas como O Jardim das Delícias Terrenas (1504, aproximadamente).

O coreógrafo trabalhou com a companhia cerca de cinco meses, entre setembro e outubro, em 2010, e este ano de fevereiro a abril. Se de um lado os bailarinos se entregaram ao novo trabalho, para o coreógrafo também é a possibilidade de desenvolver a própria linguagem. Para Lara Pinheiro, essa montagem permitiu essa troca entre os lados e enriqueceu as duas partes.
 
Obra de Bosch O Jardim das Delícias Terrenas 
Com esta estreia, o Balé da Cidade também procura consolidar o trabalho da nova direção, que assumiu ano passado, em meio a crises de corte de verba e troca de gestão (importante lembrar que não é situação singular da dança, outras áreas também passam por mudanças, questionamentos sobre suas funções, cortes de verbas). Lara lembra que todo novo diretor “ajuda a escrever um capítulo da história do Balé da Cidade”; ela e sua equipe começam a imprimir um modo de olhar a dança. Paraíso Perdido, nesse sentido, na opinião da diretora, é muito mais ousado, arrisca mais na linguagem sem deixar de lado o rigor e a excelência do grupo. Em julho, estão previstas duas novas estreias, uma do português João Mesquista e outra da própria diretora.

Serviço: 
Veja em Programe-se 

terça-feira, 3 de maio de 2011

Programe-se

Para começar maio com o pé direito. Dicas pelo Brasil.

1 - PARAÍSO PERDIDO, Balé da Cidade de São Paulo (São Paulo). Espetáculo inédito da companhia, do grego Andonis Foniadakis, e tem como referência as pinturas de Bosh.
Classificação: não recomendado para menores de 16 anos.
Sesc Vila Mariana Teatro
R. Pelotas, 141 - Vila Mariana. Telefone: 11-5080-3000.
Dias 5, 6 e 7, 21h | Dia 8, 18h
Ingresso: R$ 6 a R$ 24.

2 - NÚCLEOS, de João Saldanha (Rio de Janeiro). Espetáculo em comemoração aos 25 anos do Atelier de Coreografia. Inspirado no universo da arquitetura moderna brasileira e nas experimentações de Hélio Oiticica, que levou a pintura do quadro para o espaço. Classificação: 16 anos.
Espaço Sesc.
Rua Domingos Ferreira, 160, Copacabana. Telefone 21-2547-0156.
Dias 5 e 8 | Dias 6 e 7, 21h30.
Ingresso: R$ 16,00

3 - POL VAQUERO (Rio De Janeiro). Bailarino de flamenco faz duas apresentações na cidade acompanhado pelo também dançarino Isaac de los Reyes e pelo cantor Juañares, além de instrumentistas e coro
Classificação: livre.
Teatro Maison de France
Avenida Presidente Antônio Carlos, 58, Centro. Telefone: 21-2544-2533.
Dia 4, 19h30.
Ingresso: R$ 90,00.

4 - SÃO PAULO COMPANHIA DE DANÇA (Salvador). A Companhia paulista faz duas apresentações com quatro coreografias de seu repertório: Legend, de John Cranko, Inquieto, de Henrique Rodovalho, Prélude à l´Après-midi d’ un Faune, de Marie Chouinard, e Sechs Tanze, de Jíri Kylian.
Classificação: livre
Teatro Castro Alves
Praça Dois de Julho,s/n, Campo Grande. Telefone: 71- 3535-0600
Dias 6 e 7, 21h
Ingressos: R$ 20,00
Atividades paralelas: dia 6, às 15h, Espetáculo aberto para estudantes; dia 7, às 10 horas, Oficinas (técnica de Balé Clássico e técnica de Martha Graham) para bailarinos e coreógrafos acima de 14 anos com experiência em dança. Inscrições gratuitas pelo site: www.saopaulocompanhiadedanca.art.br

5 - BIENAL SESC DE DANÇA (Brasil). A Bienal Sesc recebe propostas até 10 de maio de trabalhos inéditos e não-inéditos, para sua 7ª edição, que acontecerá de 1º a 8 de setembro
Para participar:
Os interessados em participar poderão enviar suas propostas de 1º de abril a 10 de maio de 2011, somente pelo Correio e com Aviso de Recebimento (AR) para o endereço abaixo:
Bienal SESC de Dança 2011
SESC Santos
Rua Conselheiro Ribas, 136
CEP 11040-900
Bairro Aparecida
Santos | SP
Brasil
Serão selecionados espetáculos, performances e instalações para teatros, espaços abertos e alternativos.
A proposta deverá conter: o formulário de inscrição abaixo, preenchido e impresso;
(observação: após o preenchimento e o envio online com sucesso do formulário, você será direcionado para uma página específica para a impressão); histórico do grupo/companhia/artista; release do espetáculo;ficha técnica completa com a duração e detalhamento do espetáculo; necessidades técnicas (som, luz, cenografia, etc), tempo de montagem e desmontagem; número de profissionais essenciais para viagem; vídeo do espetáculo (atual ou do último trabalho realizado) ou link disponível para visualização do projeto; arquivo digital contendo três fotos (formato jpg) acima de 300dpi de resolução.
A Bienal SESC de Dança oferecerá aos contemplados:
- cachê,
- hospedagem,
- alimentação,
- transporte para grupos.
Mais informações:
http://www.sescsp.org.br/sesc/formularios/bienalDanca/index.cfm

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Antes, a sala de aula

Por Flávia Fontes Oliveira


Scheir | Foto: Amir Sfair Filho
A sala de aula é espécie de antessala do palco. E não há uma bela carreira sem um bom professor, independentemente da técnica. Atenção, ser bom não é ser bonzinho. Mas é preciso generosidade para olhar o outro, realçar qualidades e treinar dificuldades. Quem são os formadores em destaque no Brasil, o que fazem, como trabalham, o que pensam?

Com esta entrevista de Ricardo Scheir, do Pavilhão D, de São Paulo, inauguramos uma série com nomes da dança brasileira que alimentam a cena com dedicação e entusiasmo, mesmo que nem sempre sejam lembrados pelo público.

Scheir é reconhecido por seu olhar certeiro e exigência na sala de aula. Já revelou muitos talentos e, no dia a dia, “é chato”, como diz, pois precisa ensinar. Não mede esforços para ajudar e não tem medo de dizer que se desdobra para manter sua escola da maneira que acredita, sem concessões.

Teve como grande mestra Toshie Kobayashi, foi diretor e coreógrafo da W´atts Cia de Dança (1986-1989), dançou na Austrália com a David Atkins Dance Company na década de 1980. Atualmente, além da escola, atua como professor convidado e jurado em diversos festivais e eventos do Brasil. Para ele, não é apenas um corpo apto para a dança o que chama sua atenção em um jovem bailarino. Às vezes, é o olhar, às vezes o movimento do braço que o faz olhar duas vezes para a mesma pessoa. Muitos desses meninos e meninas que encontra pelo Brasil acabam hospedados em sua casa, quando não têm condições de se acomodarem em outro lugar.

Em 15 anos de escola, já recebeu inúmeros prêmios com seus alunos e como coreógrafo. Contudo, o que importa é transformar corpos brasileiros, fazê-los dançar. “Eu adoro o que faço.” Abaixo, um pouco de sua conversa com a Revista de Dança.

Como é seu trabalho no Pavilhão D?
Ricardo Scheir: Meu trabalho é de muita repetição. A repetição traz a perfeição. É um trabalho de formação mesmo, não só do balé clássico, mas da dança. Meu interesse é fazer com que os corpos sejam delineados e estejam prontos para se mexer de qualquer forma.

Qual a dificuldade desse dia a dia?
Scheir: O importante é quando você consegue achar, consegue cruzar com pessoas que têm aptidão e vocação. A aptidão seria ter um corpo bom para a dança, não são todos os corpos que são aptos, principalmente para o balé. Mas o mais importante é a pessoa ter vocação, gostar do ensaio, gostar de fazer aula, gostar de repetir.

Como bailarino, você gostava disso?
Scheir: Chegou um determinado momento da minha vida que isso já estava me saturando, eu não queria mais dançar. Comecei a me descobrir ao contrário, descobri outra coisa que é legal e tem esse resultado no palco.


Como se fosse, 2010 , de Scheir |
Foto: Amir Sfair Filho
Quando foi essa passagem?
Scheir: Essa passagem foi quando comecei a sentir dificuldades físicas para continuar exercendo a profissão de bailarino. E fiquei pensando: o que vou fazer agora? Eu não tinha na cabeça ter uma escola. Eu comecei a dar aulas para sobreviver, não por prazer, porque queria me manter com a dança e ver o que faria. E foi nascendo um prazer imenso. O legal foi quando descobri, vi o que estava montando, vendo resultados, transformando corpos. Se você pega uma menina, entre 10 e 13 anos, você transforma o físico dela para o resto da vida – ou para o bem ou para o mal. Você vê esta transformação e sente que ali tem arte é o casamento perfeito.

O seu grande barato é dar aula para pessoas com esta idade?
Scheir: O meu grande barato é dar aula para quem está a fim, não para quem paga a mensalidade. É que, nesta fase, você vê o corpo se transformar. Quando está mais velho a transformação é quase imperceptível porque ela é mais lenta, o corpo já está formado. Mas nesta fase, em três meses, você já vê a diferença.

Você também é considerado um ótimo olheiro da dança.
Scheir: Eu acho fundamental em qualquer professor, não só de dança, ter um olhar diferenciado para cada pessoa. Não pode ter um olhar aberto para todos, tem que olhar com calma e procurar qualidades em cada um. Algumas qualidades já estão a vista, outras você vai cutucando e encontrando. E ainda tem algumas pessoas que vejo, já passaram da idade, mas são inteligentes – como captam e transferem as informações para o corpo. Essa inteligência faz diferença. Você pode pegar uma menina de 17 anos, se ela tiver um bom físico para o balé, se ela for inteligente, em dois anos, você a transforma. Óbvio, quanto mais cedo começar, você vai modelando, vai deixando o corpo de uma forma que, quando ela for mais velha e tiver estrutura física, poderá fazer tudo que pedir. Quando o corpo não é jovem, o cérebro tem que trabalhar o dobro para cobrir essa falta.
Eu tenho aqui muitos adultos, muitos que vêm do interior, com 18, 19 anos. Com eles, eu tenho que ser muito rígido. Fazê-los estar atentos a tudo na aula. Chego a ser chato, mas é para o bem deles. Eles não têm tempo para esperar sentir no corpo, eles têm de fazer o corpo sentir aquilo, tem de usufruir da inteligência.

Segundo Toque, 2010, de Scheir. Foto: Divulgação
Você também consegue ver alguém dançando qualquer estilo e perceber que tem talento?
Scheir: Eu viajo muito, o Brasil inteiro, dou aulas. Às vezes, algo me chama atenção. É difícil explicar. Se eu olho duas vezes, eu olho a terceira para ver por que olhei. Às vezes, é só o olhar, às vezes, como mexe o braço. Eu vejo qualidades, não precisa ser sempre a mesma coisa. Às vezes, a coisa aparece quando menos se espera. Eu me lembro de um grupo em um concurso que tinha vários jovens fazendo dança de salão. Eu vi um adolescente e ele me chamou atenção, era diferente dos outros, a forma como ele se mexia, a forma como olhava, a forma do pescoço. Eu cheguei para a professora e falei que gostaria de conhecê-lo e pedi para ele fazer uma aula minha. A professora disse que ele não fazia balé, mas falei que não tinha problema, só queria vê-lo com mais calma. Realmente ele não sabia nada de balé, mas ele tinha uma coisa natural, um brilho nos olhos, que achei lindo. Eu perguntei se ele não queria fazer qualquer tipo de dança; depois de uns três meses, apareceu na escola. Ficou aqui dois anos e já está na Alemanha há cinco. Nesse caso, não foi o físico que me chamou atenção, aquela coisa de ter en dehors, de ter a perna alta – isso também me chama atenção, é lógico. O que me chama atenção é isso que não consigo explicar, quando me faz olhar duas vezes

Para você, o que é importante em uma escola?
Scheir: Para mim, é um negócio, tem um lado comercial, mas o importante em uma escola é educação e formação.

Sua escola tem uma educação formal em dança? Com diploma?
Scheir: Eu não me prendo a isso. Para mim não existe: “olha, aqui está seu diploma, você está formado”. Para a arte, não existe isso, porque tem um momento que não adianta o papel. Não é o tempo de dança que faz de você um bailarino, é o que realmente você tem de dança que a escola colocou para fora e mostrou sua capacidade de viver disso, de viver a dança. A pessoa pode ficar 15 anos fazendo aula, isso não quer dizer que ela vai ser uma bailarina. Uma parte técnica ela pode conseguir, meu diploma pode servir tecnicamente. Porque a escola dá a técnica, agora a arte, o talento, nós só lapidamos, já tem que vir com a pessoa.

Anton, 2010, de Scheir |
Foto: Amir Sfair Filho
Como você consegue dar atenção particular em uma aula com tantas pessoas?
Scheir: Este é o segredo dos professores. Dentro de uma sala de aula, com trinta pessoas, eu tenho que saber fazer valer aquela aula para trinta corpos diferentes. Nós não temos trinta corpos iguais, como a escola do Bolshoi, por exemplo, onde vemos quinze meninas com o mesmo tamanho de perna, mesmo tamanho de pescoço, mesmas condições físicas. Neste caso, define-se uma aula, uma técnica e elas são preparadas. Nós temos corpos diferentes: um tem tendão mais curto, outro mais longo, outro tem a musculatura mais forte, outro tem musculatura mais frágil, outro pensa mais rápido. Eu tenho que saber lidar com isso e fazer com que a aula seja boa para todos ao mesmo tempo. É um desafio, é disso o que eu gosto. É um desafio ter um rapaz longilíneo, com físico bom, e ter um rapaz todo troncudo, curto, todo antidança; é bom ter os dois juntos. Eu vou dar a mesma aula para os dois, mas vou fazer com que os dois trabalhem diferentes, são os desafios que temos no Brasil.

Qual a carga horária para quem quer se profissionalizar?
Scheir: Eles ficam na escola três ou quatro horas por dia.

Quanto tempo você tenta trabalhar com um bailarino?
Scheir: Eu não tenho um tempo determinado, é até a hora que eu vejo que ainda está valendo a pena tentar. Algo me diz, chega.

Alguns de seus alunos dançam hoje em alguma companhia no Brasil?
Scheir: Sim. Tenho ex-alunos no Balé da Cidade, na Cisne Negro Cia de Dança, São Paulo Companhia de Dança, entre outras.

Conjunto clássico, 2010, de Ricardo Scheir | Foto: Alceu Bett 
Você ainda hospeda bailarinos que são de fora de São Paulo em sua casa?
Scheir: Neste momento tem pouco, mas estão previstos mais dois.

Poderia contar um pouco desta história.
Scheir: Tudo tem um preço a pagar. Eu vejo estes talentos e vejo também que eles não teriam condição de viver em São Paulo, não é fácil viver em São Paulo. Eu tento, da minha forma, ajudar e uma das formas que posso ajudar é oferecer a casa por um tempo.

Tem alguma regra?
Scheir: Dentro de casa, coloco algumas regras, alguns itens para convívio. Se não é complicado, alguns são desconhecidos. Eu não tive muitos problemas até hoje e já coloquei muitas pessoas lá. Digamos que 10% tenha me dado algum trabalho. É uma porcentagem muito pequena, a grande maioria soube se portar. Nós temos muita coisa em comum. Eu tenho sede dessa formação, eles têm sede dessas informações para formação. A única coisa meio ruim é que não consigo me desligar porque eu saio daqui, vou para casa, e continua o mesmo tema.

Quantos alunos têm na sua escola?
Scheir: Depende. Porque falo isso, tudo tem um preço a pagar para manter essa qualidade. Por exemplo, se você é uma mãe e chega aqui, quer uma avaliação, eu sou sincero, vou falar exatamente o que vi. E nem todas gostam dessa franqueza, mas eu prefiro ser franco. Se ela quiser matricular a criança assim mesmo, não vai ter cobrança. Mas a grande maioria não aceita e vai embora. Se a pessoa não tem realmente jeito, o mínimo, não é aptidão, é jeito para dançar, eu não coloco para dançar. Não é pagando que vai colocar a criança para dançar, eles (os pais) pagam a mensalidade para fazer aula, mas alguns acham que, se pagam, tem o direito de dança, e dançar o que quer. Comigo não é assim, com isso, óbvio, eu perco muito aluno. Eu trabalho muito fora da escola, onde eu realmente ganho dinheiro. A escola eu quero que ela se mantenha. Ela se mantém para que seja um laboratório. Eu tenho hoje cerca de 130 alunos e 40 bolsistas.

Todo professor ou formador é bravo?
Scheir: Não sei. Tem algumas pessoas que se eu chegar para elas e falar assim: o ombro aqui tem que ser baixo e o joelho bem esticado, você entendeu? Ela vai entender. Para outro, eu tenho que falar (em tom bravo): você ainda não entendeu que o ombro é baixo e o joelho é esticado? Isso é como ter dois filhos, para um, às vezes só chegar e informar são suficientes, para outro, você precisa informar e mudar o tom de voz para a pessoa ficar atenta. Digamos que eu seja chato. Eu sou chato. Alguns professores desistem, eu sou chato. Se entrarem comigo na sala, vão tem que entender. Eu vou procurando jeitos de fazer isso. Falando normal, falando sério, sendo rígido, tirando barato, eu vou procurando alguma forma, algum resultado vai ter que dar. Eu não tenho uma forma de trabalhar, eu vou procurando formas de ter resultados.

Qual sua maior referência?
Scheir: Minha referência é a dona Toshie (Toshie Kobayashi), minha mestra. Ela me fez ter amor ao balé, amar isso. Quando eu falei que pretendia ter uma escola e o apoio dela era importante, ela me disse: se você quer ter uma escola, eu vou te apoiar ao máximo, mas você vai ter que estar aqui e vai me assistir a dar as aulas. Para mim, foi um grande aprendizado técnico, o que ela via, como ela enxergava aqueles corpos. Ela brincava: o importante é chegar ao supermercado, cada um vai ter um caminho, um vai ter um caminho mais plano, outro talvez uma descida, outro uma subida, outro cheio de curvas. Eu digo que o bom professor não é aquele que dá uma boa aula, o bom professor é aquele que tem uma aula que traz resultados. Não adianta eu ter uma aula pronta se aquela aula não está trazendo resultados para aqueles corpos que estão ali. Eu estou sendo um bom professor se eu entender aqueles corpos e fizer com que eles dancem.

Qual seu desafio hoje?
Scheir: Eu ainda quero ter uma grande república da dança, onde as pessoas não tenham que pagar para ter estudo e eu possa oferecer trabalho psicológico, físico, artístico. É um sonho e ainda vou ter.