quarta-feira, 27 de julho de 2011

Imagens que dançam: Roseli Rodrigues – Poesia em Movimento


Por Marcela Benvegnu

Fiz contagem regressiva para dia 27 de julho. Nunca pensei em fazer um filme. Achei que fosse lançar um livro antes. Engano meu. A vida nos leva para outras, diferentes, deliciosas e desafiadoras coreografias. Daqui algumas horas, no Festival de Dança de Joinville, na Feira da Sapatilha, às 17h30, lanço em parceria com a Inês Bogéa, o documentário Roseli Rodrigues – Poesia em Movimento. 

O filme de 24 minutos aborda de forma clara e poética a trajetória coreográfica de Roseli Rodrigues, um dos maiores nomes do jazz dance no Brasil, e conta com depoimentos de Edy Wilson, Andrea Spósito, Isabella Rodrigues, Kika Sampaio, Fabio Namatame, Maurício Pina, Luis Arrieta, Edson Claro, Ely Diniz, Carlota Portella e meu. 

É um trabalho coletivo de artistas. O Festival de Joinville é o patrocinador do projeto e a Só Dança assina o copatrocínio. Todos acreditaram e se mobilizaram para compor essa coreografia de imagens e memórias. A concepção é minha e da Inês, mas o filme pertence a todos. Como ela diz, “a autoria está no olhar, na edição das falas, imagens, sensações e desejos”. O vídeo – que tem legendas em inglês - será distribuído gratuitamente para escolas, universidades, ONGs e bibliotecas no Brasil e tem uma particularidade interessante, o formato: um livreto que contém o documentário. O texto contextualiza a história de Roseli que é contada por muitas vozes no vídeo e ambos dialogam todo o tempo para que todos possam dançar com as palavras e imagens. 


EXPECTATIVA - Muitas pessoas estavam me cobrando aqui no blog, depois de um hiato de sumiço, viagens internacionais e muitos espetáculos da São Paulo Companhia de Dança, um texto sobre o filme, principalmente a Flávia Fontes, minha sócia na Revista de Dança. Algo que apresentasse um pouco do documentário, mas que também falasse o que eu estou sentindo. Ansiedade? Medo? O coração pulsando na boca? Expectativa? Não consigo definir. 

Pensei num texto (em vários), caso eu tenha que falar alguma coisa durante o lançamento, porém, não tenho mais ideia de como ele começa.  Fico imaginando como vai ser, quem vai estar, se vai dar tempo de todos chegarem. O que será que Roseli Rodrigues diria sobre isso e como aqueles olhos azuis reagiriam em ver sua história contada pelo olhar de outras pessoas em 24 minutos? 

Respondendo uma entrevista para o próprio Festival de Dança sobre o documentário essa semana, me dei conta de que não encarei sua morte. Talvez eu não encare. Ela ainda está viva no meu corpo, no corpo de quem passou pelas salas de aula em que ela estava à frente, nas suas coreografias. Está viva no jazz que fazemos. Então como encarar a morte?


IDENTIDADE - Esse projeto nasceu de uma conversa, minha e da Inês, sobre a importância do jazz e sobre as personalidades da dança que transitam nesse gênero. Me questionavam quando eu iria publicar a minha pesquisa sobre o estilo, e quando a Inês iria fazer um documentário sobre a Roseli. Três meses depois juntamos as vontades. Em junho de 2010 formatamos o projeto e começamos a pensar em mecanismos para conseguir patrocínio. Em julho apresentamos a ideia ao Raça, em agosto enviamos a proposta para o Festival de Dança de Joinville e para a Só Dança.

Inês e eu doamos o nosso trabalho e tivemos parceiros excepcionais, como a Associção Pró-Dança e a ARN, caso contrário, não seria possível realizá-lo. Fizemos as gravações dos depoentes em dezembro e esse foi um dos momentos mais especiais, pois foi um reencontro com a história da Roseli de outros modos, no olhar de outras pessoas, de outras vozes que também ajudaram a construir a história do Raça e do jazz. Em janeiro de 2011, começamos o processo de edição, escrevi o texto do livreto e juntas escolhemos as fotos, enviamos para revisão, diagramação e tradução. Finalizamos em abril.  

Trabalho com a Inês diariamente há quase dois anos e não tem um dia que ela não me ensine algo novo. Temos uma parceria forte, de trabalho, de respeito, de amizade. Encaramos a dança do mesmo modo e acreditamos que seja preciso registrar a memória para que possamos olhar para a história da dança do Brasil. Nesse documentário a levei para o mundo do jazz e ela me levou para o mundo do vídeo. 

Nas palavras dela, o documentário “é um presente da dança para a dança”. Eu concordo, mas, para mim, também é a certeza de que o estilo que eu escolhi para dançar e estudar tem caminhos que jamais pensei em desvendar e que precisa ser registrado. 

O nosso jazz também se dança de outros modos. Está tela. A gente sente na alma. Se mostra vivo. Me faz ver e entender a minha dança, seja ela no texto, na fala ou no movimento. É também o meu espelho. Que chegue logo 17h30 e essa dança com a voz da Roseli, seus cabelos vermelhos e olhos azuis, se espalhe, para que todos sintam o poema em movimento.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Sapateado em boa companhia

Por Flávia Fontes Oliveira

Chris Matallo, multiartista
Foto: divulgação
Christiane Matallo é artista múltipla. Além de sapateadora, é musicista e canta muito bem. Participou recentemente do musical New York, New York e agora, de Joinville, onde é jurada do Festival de Dança, conta um pouco sobre encontros e o crescimento do sapateado.

Para você, o sapateado tem crescido nos últimos anos?
O sapateado cresceu tanto em quantidade de pessoas que querem aprender este gênero quanto o crescimento técnico e artístico. Sinto que muitos sapateadores estão em busca de mais conhecimento. Mas me preocupa também as novas gerações que querem resultados imediatos, tudo leva tempo, especialmente para encontrar seu próprio estilo e para adquirir maturidade artística.

 
O que é importante destacar em um Festival de Dança?
O mais importante e o intercâmbio. A troca entre professores, alunos, interpretes, plateia, espectadores. Joinville mudou muito em relação aos anos iniciais. Antigamente víamos o festival como uma grande competição. Com o tempo, ele trilhou um caminho e tomou um corpo de um grande mundo da dança, onde há oficinas, mostras paralelas, os palcos abertos. Na própria noite competitiva, hoje, o jurado é um grande mediador, que no dia seguinte troca idéia com os representantes das obras coreográficas para que os artistas realmente saiam mais amadurecidos.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Um olhar para jovens bailarinos

Por Flávia Fontes Oliveira
Coreógrafa Daniela Cardim é jurada em Joinville.
Foto: Angela Sterling 
Há um grande número de pessoas envolvidas nas escolhas de um festival. A Revista de Dança, para acompanhar o Festival de Joinville, entrevistou alguns dos jurados para saber qual é o olhar deles sobre os bailarinos.

A primeira entrevistada é Daniela Cardim, talentosa bailarina e coreógrafa brasileira. Atualmente, ele vive em Londres e cursa a faculdade de Arts Management. Dançou por cerca de dez anos no Het Nationale Ballet, na Holanda. No Brasil, em 2009, coreografou Passanoite, para a São Paulo Companhia de Dança. Recentemente fez um trabalho para o workshop coreográfico do English National Ballet, a convite do diretor Wayne Eagling. Em setembro, também fará algo para a Ópera de Amsterdam.

Em Joinville, ela participa do júri de Balé Clássico e também está na comissão responsável por assistir ao Festival inteiro e premiar o melhor bailarino, bailarina, grupo, coreógrafo e revelação.

Ela conta neste início que “o Festival já está fervendo”. A seguir, conheça mais um pouco sobre o que ela pensa e enxerga na dança.

Para você, o que é importante observar em um festival?
Para mim, o Festival de Dança de Joinville é uma vitrine para observar a Dança em todo o Brasil. Como estou há muitos anos fora, quando vim ao Festival ano passado, fiquei feliz em observar que o nível da dança brasileira se elevou e não está atrás de outros países da Europa. Claro, há diversos níveis, mas os vencedores do Festival estão com um nível internacional. 
O Festival também é uma oportunidade única de trocar ideias com profissionais de outros estados e outras áreas de dança que admiro, mas conheço menos, como danças populares e danças urbanas.

O que você olha em um bailarino?
Observo em um bailarino a técnica e o físico, mas também a sua capacidade de interpretar a obra e acrescentar um algo a mais à coreografia. Esse fator é' o diferencial, pois técnica e físico são exigências concretas do balé clássico, mas a interpretação, o carisma e a inteligência no movimento dão ao bailarino a possibilidade de se destacar e diferenciar.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Fino diálogo

Por Flávia Fontes Oliveira
Victor Gastão Vila Nova em cena de Nos Outros, de Lara Pinheiro
Foto: Camila Ribeiro (facebook)
Há bailarinos que nos conduzem pelas coreografias mostrando o fino diálogo entre criador e intérprete. Victor Hugo Gastão Vila Nova fez desta união um ponto alto em Nos outros (veja a crítica em breve), da diretora Lara Pinheiro, na nova estreia do Balé da Cidade de São Paulo, no Teatro Municipal de São Paulo, dia 7 de julho.

Seu solo inicial apresenta e sela a cadência de toda coreografia, em uma combinação de clareza e suavidade – no sentido de jamais um gesto escapar com rigidez. Por seu desenhar a cena, desvendamos a coreografia. Depois, impossível desviar os olhos quando ele está no palco.  

terça-feira, 12 de julho de 2011

Encontros da dança

Por Flávia Fontes Oliveira
Ely Diniz, presidente do Instituto Festival
Dança | Foto: dvulgação
Um lugar de encontro, acima de tudo. Para muitos professores, bailarinos, coreógrafos e estudantes o Festival de Joinville se apresenta desta forma para tratar do assunto comum a todos, a dança – e ela é vista e revista de diversas formas. Este ano em sua 29ª edição, que acontece de 20 a 30 de julho, o evento espera receber cerca de seis mil bailarinos (entre competidores, cursistas, professores, coreógrafos, etc) e um público estimado em mais de 300 mil pessoas. Números superlativos para a dança. Em meio à festa e competições, o festival abriu espaço para mostras, cursos, lançamentos e seminários.

O evento ganhou projeção e fama com os bailarinos que se apresentaram e competiram por lá. Aos poucos, foi conquistando espaço e criando uma aura para jovens estudantes. Último exemplo, Mayara Magri (veja matéria aqui), vencedora do Prix de Lausanne, na Suíça, este ano, passou primeiro por lá, foi medalha de ouro ano passado. O grande centro de eventos Cau Hansen recebe os bailarinos em oito noites de competição: balé clássico de repertório, balé clássico, dança contemporânea, sapateado, jazz, danças urbanas e danças populares.

Ely Diniz da Silva Filho, presidente do Instituto Festival de Dança, entidade responsável pela execução do Festival de Dança de Joinville, falou com a Revista de Dança sobre a importância e os desdobramentos do evento.

Na sua opinião, qual o grande mérito do Festival?
Ely Diniz: Sem dúvida são: a pluralidade, o foco didático e o fato de ter se tornado uma grande vitrine para talentos de todos os gêneros e novas companhias.

O Festival deve reunir cerca de seis mil bailainos | Foto: divulgação
No próximo ano, o festival completa 30 anos, para o senhor, como o festival tem amadurecido?
Ely Diniz: O amadurecimento tem se dado pela atuação do Conselho Artístico (este ano os conselheiros são: Fernanda Chamma, João Wlamir, Ana Vitória, Andréa Bardawill Campos), que se renova anualmente e traz contribuições que impulsionam o Festival a se renovar, se atualizar e a estar antenado com a dança mundial. Outro ponto é a sua estabilidade financeira, com apoio de grandes empresas e leis de incentivo, na dependendo de verbas de orçamento, principalmente, da Prefeitura. Essa característica dá ao evento estabilidade e o deixa, de certa forma, alheio às mudanças políticas que poderiam afetar sua execução.

Quais as principais conquistas?
Ely Diniz: Além dos fatores acima descritos, o reconhecimento nacional e internacional, inclusive com a criação dos seminários, trazendo para o evento uma massa crítica, que possibilita juntar teoria e prática.

O que o emociona na dança?
Ely Diniz: A própria dança.
Voz para todos os gêneros | Foto: divulgação

Vale a pena estar à frente de um empreendimento como este? Por quê?
Ely Diniz: Vale a pena pelas pessoas, pelos artistas, pela dificuldade de se fazer um evento artístico em um país como o nosso. Pelos desafios, que fazem com que a adrenalina suba e todos os anos a gente tenha que "matar alguns leões", mas é enriquecedor.

Para saber mais, a Revista de Dança vai acompanhar os resultados e mostra os destaques do evento. Fique de olho. 

sábado, 9 de julho de 2011

Missão para bailarinos

Por Flávia Fontes Oliveira
Gisèle Santoro.
Foto: divulgação

Há 21 anos, Gisèle Santoro é o nome e o sobrenome por trás do Seminário Internacional de Dança, que acontece em Brasília, sempre no mês de julho. Como coordenadora e diretora artística, ela é responsável pelo modelo que já distribuiu mais de 330 bolsas internacionais para os bailarinos brasileiros que se destacaram nas edições anteriores.

Novamente agora, entre os dias 10 e 31 deste mês, cerca de 300 bailarinos devem participar do Seminário. Como ganhar estas bolsas? O bailarino precisa participar das aulas, ensaios e apresentações. Segundo a diretora, cada participante é observado em vários aspectos, “para ter o máximo de certeza de que irão aproveitar a bolsa”, diz. Cada professor|jurado está atento ao potencial de cada bailarino.

Quando começou, Gisèle queria diminuir a lacuna brasileira de falta de oportunidades aos estudantes. Sua “missão”, como diz, foi sempre a de oferecer aperfeiçoamento aos bailarinos, com os professores internacionais convidados, e, assim, abrir portas para possíveis carreiras nacionais e internacionais.

Para quem quer algo a mais, o seminário oferece, pelo menos, três semanas de curso. Tempo para “solidificar alguma coisa, do ponto de vista de ensinamento”, diz a coordenadora. E, segundo ela, são professores de acesso limitado em seus países porque dão aulas para companhias profissionais, na maioria dos casos.

Gisèle Santoro, que já foi bailarina e fundadora da Associação Cultural Claudio Santoro (1919-1989, maestro, intérprete e compositor brasileiro, ela é viúva e teve com ele três filhos), já usou neste Seminário uma herança de cerca de R$ 300 mil. Valeu a pena? “Eu acredito terrivelmente no evento. Quando vejo algum bailarino subindo ao palco, justifica tudo”, diz.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Uma noite de retorno e renovação

Por Flávia Fontes Oliveira
Cena de Nos outros, de Lara Pinheiro.
Fotos: Sylvia Masini
O Balé da Cidade de São Paulo faz seu segundo programa do ano, de hoje, dia 7, a domingo, no retorno à casa da companhia, o Teatro Municipal de São Paulo. São duas estreias, Nos outros, da diretora Lara Pinheiro, e Cidade incerta, do português André Mesquita. Ainda apresenta Divineia (2001), de Jorge Garcia, ex-bailarino do grupo. Com estes espetáculos, o Balé da Cidade continua costurando sua identidade sob o novo comando, uma companhia contemporânea com elenco renovado e trânsito entre coreógrafos de linguagens distintas. Este também é o mês da dança no Teatro Municipal e só isso já vale um brinde para a dança na cidade (ainda apresentam-se na casa São Paulo Companhia de Dança, Cisne Negro Cia de Dança, Companhia Teatro Dança Ivaldo Bertazzo, entre outras).

Lara Pinheiro compôs sua coreografia em colaboração com os dez bailarinos do elenco (Adilson Junior, Jefferson Damasceno, Yasser Díaz, Cleber Fantinatti, Victor Hugo Vila Nova, Marisa Bucoff, Fabiana Fornes, Thaís França, Liliane de Grammont, Jan Alencar ou Wagner Varela) e procura explorar a força e movimentação dos intérpretes. Nos outros trata do acúmulo de informações e experiências despejadas sobre o corpo. “O que aprendemos e coletamos do outro versus o que deixamos como marca na interação com o outro”, diz o programa.

Outra estreia da noite, Cidade incerta toma como ponto de partida o Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa (1888-1935). O jovem coreógrafo André Mesquista – nasceu em 1979 – é fundador da TOK’ART – Plataforma de Criação, ao lado de Teresa Alves da Silva. Entre suas peças estão Como é bom tocar-te, A short history of walking, Cinderela, Slow, A Kind Of (esta última para a Cross Connection Ballet Company com artistas do Royal Danish Ballet, Danish Dance Theater e Skanes Dance Theater).

Cidade incerta, de André Mesquita
Mesquita tem se destacado por sua capacidade de reunir linguagens corporais distintas em dramaturgias bem desenhadas. Nesta coreografia para o Balé da Cidade usa o texto de Pessoa para tratar de certas singularidades da vida, como diz o texto de apresentação retirado do livro citado: “Vou mudando de personalidade, vou (aqui é que pode haver evolução) enriquecendo-me na capacidade de criar personalidades novas, novos tipos de fingir que compreendo o mundo, ou, antes, de fingir que se pode compreendê-lo.”

Para completar o programa, a companhia apresenta Divinéia, coreografia dançada por oito homens, de Jorge Garcia. Na peça, cujo nome era usado por presidiários para a sala de revista corporal da Casa de Detenção de São Paulo, popularmente conhecido como Carandiru, Garcia mostra o convívio entre estes homens, em uma coreografia que explora a força masculina. (Selecionei uma parte no vídeo abaixo)

É um elenco de grande capacidade e, só por eles, já valeria ver o espetáculo. E a direção tem sugerido um caminho rico para estes bailarinos.


sexta-feira, 1 de julho de 2011

Instante da dança IV

Por Flávia Fontes Oliveira
Reginaldo Azevedo é quase unânime, quem dança ou dançou já deve ter sido fotografado por ele. O engraçado é que, apesar de reconhecido pelo trabalho, poucos o reconhecem pessoalmente - está sempre escondido pelas câmeras. Para quem não sabe, ele assina Raphoto e tem um site com muitas novidades de dança (www.raphoto.com.br). Há 25 anos registrando esta arte, ele acompanhou o movimento da dança no Brasil. Fotografou alguns artistas e companhias consagradas como Ana Botafogo, Cecília Kerche, Luis Arrieta, Balé da Ópera de Paris, Balé da Cidade, Cisne Negro Cia de Dança, São Paulo Companhia de Dança entre muitos outros

Suas fotos estão publicadas em veículos de todo país e em livros de dança. Atualmente, acompanha o Passo de Arte e seu desdobramento internacional o Youth America Grand Prix. “Considero estes dois festivais um dos mais importantes pólos de integração de jovens bailarinos com profissionais do Brasil e do mundo, criando aí uma conexão com o mercado externo, já que o país não oferece muito essa condição”. A seguir, ele conta um pouco mais sobre sua ideia por trás das câmeras.

O que você gosta de fotografar na dança?
Reginaldo: Alem da movimentação, gosto de captar a interpretação dos bailarinos, sinto que é neste momento que eles conseguem passar para o publico a emoção do personagem e colocam ali um pouco do seu ser

Por que resolveu fotografar dança?
Reginaldo: Já era fotógrafo e um amigo fotógrafo de dança, Thomas de Paz, me convidou para ajudá-lo em um trabalho, acabei me apaixonando pela dança, acho que a música, o movimento, o falar sem expressar palavras me cativaram e tem feito eu ficar por tantos anos fazendo isso.

Para você, a fotografia ajuda a construir a história da dança?
Reginaldo: Depois de ver tantos movimentos coreográficos, penso que a dança não só constrói sua historia como conta a trajetória da raça humana de uma forma diferente, ela coloca o sentimento que está sendo vivido naquele período e o transforma em comunicação visual, auditiva, nos levando a uma nova reflexão. Ela nos tira do momento atual e nos transporta por sensações que às vezes se encontram adormecidas em nosso cotidiano.

Outros olhares sobre a dança aqui mesmo na Revista de Dança com João Caldas, Silvia Machado e Arnaldo J.G. Torres

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Olhar a cena

Por Flávia Fontes Oliveira

Angel Vianna tem uma frase linda que costuma dizer: “Eu gosto de gente”. Ela, que é uma dama da dança brasileira, sabe do que está falando. As pessoas enriquecem tudo e, mesmo quando não dá para distinguir, são elas que, ponto a ponto, apontam os caminhos.

Marcela Benvegnu, minha sócia aqui, está acompanhando a primeira viagem internacional da São Paulo Companhia de Dança e está escrevendo, como repórter incansável que é, um diário sobre esta experiência. São muitas informações com um olhar “de dentro”. E é on-line: www.saopaulocompanhiadedanca.blogspot.com. “Eu queria mostrar um olhar além do palco, os bastidores e, sobretudo, quem são as pessoas”, ela me diz. Uma beleza, vão lá.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Uátila Coutinho, inquietações da dança

Por Flávia Fontes Oliveira

Em Traço, de Cassilene Abranches |
Foto: Rodrigo Mendes
A inquietação é marca de artistas, mesmo quando estão em projetos grandes. Difícil identificar quando chega, mas ela está ali, pronta para pegar qualquer um de jeito. Uátila Coutinho, 23 anos, hoje bailarino do Grupo Corpo, estreou o solo Traço, de Cassilene Abranches, sua colega de elenco na companhia, em Belo Horizonte, na Mostra Klauss Vianna, há pouco mais de um mês. Pura inquietação. A ideia veio de conversas dos dois na coxia, este espaço mágico entre o palco e o que está fora da cena. “Quando eu cheguei a Belo Horizonte, não dançava muito e também não tinha muito o que fazer na cidade. Sugeri a Cassi montar um solo. Ela já estava empolgada em coreografar porque havia acabado de montar Contracapa (2009), para o Ballet Jovem do Palácio das Artes”. Agora inscreveu a coreografia em alguns festivais para dançar novamente. 

Traço foi surgindo entre um espetáculo e outro do grupo mineiro e Uátila começou a contar, como ponto de partida, sua história e seus gostos. Ele começou a dançar tarde, aos 14 anos, em uma escola da prefeitura de São José do Rio Preto. Não tinha muitos amigos e, como ele mesmo diz, “na falta do que fazer”, acompanhou uma vizinha às aulas.

O tempo revelou seu jeito para as aulas e achou que daria certo a profissão de bailarino. Foi para São Paulo, dançou em telenovelas e musicais. Em 2008, entrou na São Paulo Companhia de Dança, em São Paulo. Um ano mais tarde, passou na audição do Grupo Corpo. Tem dado certo viver da dança, embora, não seja simples. “Ter a dança como profissão é um pouco assustador e incrível ao mesmo tempo. A dança mexe muito com nossa cabeça, nossas emoções e nossa vida. Vivemos buscando, mudamos de cidade, deixamos família e tudo em busca de viver a dança”, diz ele. Hoje dança é profissão e ele ajuda a família quando precisa – a mãe é doméstica e sempre o apoiou, mesmo quando tudo era incerto. Mas ainda é difícil ficar afastado da família.

Todos esses dados serviram para Traço. “Tudo o que conversamos, Cassi foi tirando ideias para buscar a trilha, ideias para movimentos e desenhos coreográficos e o traço pouco a pouco foi nascendo. Demos esse nome por ele contar minha vida, por ser algo marcado.”
Coreografia tem sua história como referência
Foto: Rodrigo Mendes
Quem já viu Uátila Coutinho no palco sabe que o nome da coreografia também diz muito de sua figura, alto, linhas de corpo precisas, movimentos grandes. Traços em movimento. Engraçado como na cena ele cresce, deixa sua personalidade doce de lado e ganha força, expressão e potência. Ainda bem que a inquietação existe.

terça-feira, 21 de junho de 2011

O que te emociona na dança? Por quê?

Por Flávia Fontes Oliveira

"O que realmente me emociona na dança são bailarinos de verdade. É fácil reconhecê-los: são aqueles que iluminam um palco ou uma sala de aula no mesmo instante em que começam a dançar. Não colocam a técnica acima da arte, mas a utilizam como instrumento do seu ofício. Reconhecem o seu lugar. Os movimentos são as palavras necessárias para contar uma história. Não apenas a história do espetáculo, do repertório, do coreógrafo, mas a sua própria. É de extrema beleza bailarinos que mostram quem são em apenas três minutos. Para quem dança com corpo, alma e coração, é fácil. E quando estou diante de artistas assim, é impossível os meus olhos não marejarem."
Cássia Pires, dança nas aulas e nas palavras.
Foto: acervo pessoal
Cássia Pires, 31, bailarina, revisora e preparadora de textos. Começou a dançar aos 27 anos e, além das aulas, dança com as palavras. É autora do blog http://www.dospassosdabailarina.wordpress.com/, nele mostra que o balé pode ser arte de todos – cada um encontra seu meio de torná-lo parte da vida. Como ela mesma diz “a dança não aceita entraves, nem no corpo, nem na mente”. Sua linda resposta acima indica as razões de a dança sempre ultrapassar barreiras.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

No espaço do entre | Crítica New York, New York


Por Marcela Benvegnu

Este é meu primeiro texto em primeira pessoa para a Revista de Dança. Talvez seja o único. Já dizia Bento Prado Junior em seu livro Sereia Desmistificada que o crítico habita o intervalo, o espaço que separa público e espetáculo. E questiono aqui qual seria o papel do crítico quando ele habita o espaço do entre o público e a melhor amiga no palco? Não criticar? Seria essa a resposta mais ética? Cabível então é me colocar neste lugar (de público e de melhor amiga), e entender que é possível olhar para o espetáculo criticamente, mesmo recebendo informações privilegiadas sobre ele. Como diz a letra de My Way, de Claude François , Jacques Revaux e Paul Anka, uma das canções do musical New York New York,  é preciso aqui “dizer as palavras que verdadeiramente sente”.

Fui no sábado, 11, pela segunda vez assistir a montagem com direção artística de José Possi Neto (que na sequência já dirigirá Cabaret, com Claudia Raia como protagonista), e direção musical de Fábio Gomes de Oliveira, no Teatro Bradesco, em São Paulo. Esta é a primeira versão musical do texto baseado no livro do escritor americano Earl MacRauch. O romance ganhou adaptação para cinema em 1977, com direção de Martin Scorsese e interpretação de Liza Minnelli e Robert De Niro. A trama conta a história de amor entre a cantora Francine Evans (Alessandra Maestrini) e o saxofonista Johnny Boyle (Juan Alba) na América do pós-guerra, no auge das big bands dos anos 30 e 40. 

Maestrini e Alba: os protagonistas de NY NY | Foto: Divulgação
 A casa que parecia vazia faltando dez minutos para o início a apresentação se transformou. O teatro estava lotado e o público receptivo. Sinal que, quase ao final da temporada, com dois espetáculos aos sábados, a peça tem fôlego e, claro, temos público para musicais, um fenômeno recente em terras brasileiras.

A peça, uma comédia romântica, que começa num 2 de setembro de 1945, tem roteiro atual, diferente do seu próprio tempo, com uma pitada de humor, que transforma o então moderno em contemporâneo, sobretudo, pelas projeções presentes. As músicas (entre elas Sing Sing, de Benny Goodman, e claro, New York, New York, de John Kander e Fred Ebb) são cantadas em inglês, o que nos poupa de uma tradução que faça com que a obra ganhe outros contornos. Porém está presente e é bem colocada num lettering no palco, a não ser em Fever, quando a inteligente Simone Gutierrez (Srta. Perkins), protagoniza Fever e seu texto em primeira pessoa é transformado pelo lettering em terceira. Dá outro sentido. Faz diferença. 

Simone Gutierrez em Fever: um dos melhores momentos | Foto: Divulgação
   
 É interessante notar como as coreografias de Anselmo Zolla e Kika Sampaio já estão incorporadas ao corpo dos bailarinos. Na pré-estreia, em 11 de abril – exatos dois meses - , os bailarinos ainda precisavam se moldar ao movimento. A dança ainda não estava incorporada. Hoje isso é diferente. Eles já tem a autonomia do gesto e estão bem ensaiados. Os destaques ficam para a coreografia de Zolla com o elenco masculino em Fever, uma sequência elouquente e ritmada no chão, e o trem uma delicada e simples coreografia de sapateado de Kika Sampaio que dialoga com a projeção de um trem atrás dos bailarinos.  É sutil e poética.

Parte da dramaturgia da cena está relacionada à iluminação brilhantemente conduzida que cria diferentes ambientes num mesmo espaço sem comprometer a cena. Os figurinos, leia-se Atelier Chris Daud para Claudeteedeca e Miko Hashimoto, fazem bem aos olhos, com destaque para os sapatos bicolor.

Alessandra Maestrini, protagonista, dona de uma excelente atuação pode “não chacoalhar os ossos” como diz, mas não precisa. Ela faz o que quer, pensa e bem entende com a sua voz. Linda de ver e ouvir.

Seja com os Goldens Boys, no The Palm Club, Harlen ou na Pensylvania Station é possível ver ali a potencialidade de cada bailarino e o mérito do diretor em trabalhar o que cada um tinha de melhor e colocar isso em forma de espetáculo no palco. Aqui entra a minha melhor amiga. Christiane Matallo sapateia e toca saxofone tenor há mais de 15 anos. Isso não é uma novidade para mim. Midnight Voyage a música que une sax tenor e sapatos faz parte do seu repertório. Consigo ver de olhos fechados. Mas como é interessante reconhecer aquilo até então familiar para mim dentro de outro contexto, maior. É aqui que está o entre. O diretor usa seu corpo como instrumento da personagem e sua técnica a favor do musical.
Christiane Matallo: primeira mulher da direita para esquerda: placas no pé | Foto: Divulgação
E mais uma vez, na voz do texto da montagem, como diz o professor de sapateado de Francine Evans, que a gente “continue dançando” aqui ou em Nova York e, sobretudo, se reconhecendo no palco, mesmo quando lá em cima, entre a plateia e a quarta parede também está um pedaço de você.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Retrato | Herança de bailarina

Por Flávia Fontes Oliveira
Por vezes, não há como escapar de nossa herança – seja ela qual for. Alicia Pereda Saul, maranhense, doze anos, é filha do bailarino cubano Jose Pereda e de Olinda Saul, bailarina, fundadora e diretora do Ballet Olinda Saul, em São Luís, Maranhão.  “Não me lembro de mim sem fazer balé”, diz ela que, segundo a família, começou a frequentar salas de aula no primeiro ano de vida. Tem se destacado pela potência e disposição ao trabalho.

Além do desejo, herdou também as proporções físicas privilegiadas para o balé clássico, longos braços e pernas, pés desenhados, além de ser esguia. Como toda bailarina, sabe que o tempo é curto e pretende agora aproveitar sua cidadania cubana para estudar por lá, “quem sabe dançar no Ballet Nacional de Cuba”, ela diz. Seu sonho? Dançar no American Ballet Theater, em Nova York, onde outro brasileiro, Marcelo Gomes, hoje brilha. Ainda falta um bom trecho de estudo, dedicação e perseverança para que o sonho se concretize, mas, para a sorte da dança, Alicia não escapou de sua herança.

Alícia Pereda Saul em ensaio na escola de sua mãe,
em São Luis, Maranhão| Foto: acervo pessoal

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Por uma formação completa

Por Flávia Fontes Oliveira

Patrícia Otto | Foto: acervo da artista
Certo dia, entre uma e outra aula, uma aluna, do alto de seus 11 anos, disse a Patrícia Otto, professora da Escola de Dança do Teatro Guaíra, com a ênfase típica da idade, que gostaria de se tornar “a melhor bailarina do mundo”, mas, para isso, precisaria de sua ajuda. A ousadia da aluna a divertiu por um instante, depois “caiu a ficha”: ficava claro para ela, ali, a importância de seu compromisso e sua responsabilidade como professora.

Patrícia tem uma longa ligação com a Escola do Teatro Guaíra. Foi formada pela mesma escola e, desde 1995, é professora e coreógrafa da mesma instituição. De 2000 a 2005, assumiu ainda o papel de diretora e coreógrafa do Projeto Pré-Profissional do Teatro Guaíra, grupo premiado em diversos festivais. Graduou-se também em Dança pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (curso que atualmente é da Faculdade de Artes do Paraná) e se especializou em Consciência Corporal – Dança na Faculdade de Artes do Paraná.
Tem sede de conhecimento e entende a formação do bailarino de modo amplo: do entendimento do corpo ao conhecimento em diversas áreas. Por isso, prefere chamá-los de cidadãos. Fez aulas fora do Brasil, nos Estados Unidos e França, com professores como Floriane Blitz, Andrej Glegolski, Christian Poggioli, Sergei Soloviev e Jacqueline Fynnaert (barre à terre), mas cita como sua grande mestre Carla Reinecke, com quem trabalhou por 15 anos, primeiramente como aluna e bailarina, mais tarde como sua assistente. “Essa convivência foi de grande relevância na formação da profissional que sou hoje”, diz.

Para completar, também é diretora e coreógrafa do Otto Studio Art.

Com esta entrevista, a Revista de Dança continua a série de conversas com professores-formadores do Brasil. E eles têm muito a falar.


Você é professora de dança na Escola de Dança do Teatro Guaíra. Gostaria que contasse um pouco de seu dia a dia como professora.
Patrícia Otto: Tenho o privilégio de ser professora da Escola de Dança do Teatro Guaíra há cerca de 20 anos, uma instituição de ensino profissionalizante em dança. Pude vivenciar todos os níveis da escola, desde a iniciação ao balé até o aperfeiçoamento, acompanhar o desenvolvimento de cada fase do aluno. Fui me transformando e encontrando minhas “crenças”, meu caminho para orientar os jovens neste universo da arte.
Atualmente trabalho com os níveis intermediários e adiantados e tenho uma paixão especial em trabalhar a dança com rapazes. Não se trata de uma regra, mas a maioria deles vem de uma história de luta, preconceitos, barreiras de todos os tipos, mas também carrega consigo uma sede de vida, de aprendizado, dispostos a se dedicar totalmente nessa caminhada e isso me encanta.

A Bela Adormecida, remontado pela Escola de Dança do Teatro Guaíra
Foto: acervo da artista

Como é sua relação com os alunos?

Morgana Cappellari no solo Ne me quitte pas, de Patrícia Otto
Foto: Cayo Vieira 
Patrícia: Trata-se de um lugar comum, mas faço parte das pessoas que acreditam que não escolheram a dança, mas, sim, foram escolhidas por ela. Da mesma forma, tive a sorte de trabalhar com alunos/bailarinos que me desafiavam todos os dias. Tive uma aluna que, no “alto dos seus 11 anos”, sentada numa cadeira (sem ainda alcançar o chão com os pés), disse-me que precisava trabalhar muito, pois queria ser “a melhor bailarina do mundo”, conhecer o mundo através da dança, e olhou para mim e disse: “eu dependo de você para isso, você pode me ajudar?”. Acredito que naquele momento entendi e aceitei a minha responsabilidade como professora. Como ela, outros tantos alunos me fizeram encontrar caminhos para desenvolver o talento que cada um tinha, mas que precisava ser lapidado. Todas essas situações que a vida me apresentou e apresenta todos os dias me conduziram a um caminho de muito estudo, não apenas da técnica masculina, por exemplo, mas também das questões psicológicas que envolvem o trabalho.
Independentemente da técnica que trabalhamos, sempre tem um ser humano. E, no meu dia a dia como professora, é isso que me inspira. Que me desafia. Como posso contribuir para que esse artista entenda seu corpo, saiba o que está fazendo e, principalmente, como está fazendo. Encontrar maneiras para trabalhar com adolescentes que vivem uma velocidade tecnológica absurda, mas que, para alcançar seu objetivo, seu sonho, o que quer que desejem com a dança, precisam ficar horas numa sala de aula estudando e entendendo seu corpo, o mais perfeito computador já criado. E, principalmente, ser feliz com tudo isso.


Black and White, de Patrícia Otto,
com Daniel Siqueira | Foto: Cayo Vieira
Como são as preparações para estas aulas?
Patrícia: Sempre procuro não ficar presa apenas à técnica que estou trabalhando. Encontro em outros lugares informações que me auxiliam muito no conhecimento do corpo. Acredito que o bailarino precisa de outras imagens para encontrar seu caminho interno para executar um movimento. Por exemplo, um tour en l’air ou uma pirouette en dehors: ficar repetindo um milhão de vezes o mesmo movimento não vai fazer com que ele aconteça. Se conseguir, com certeza terá levado muito mais tempo. Mas pensar o corpo, o porquê não acontece, o que fazer para se reorganizar internamente, a energia que envolve esse corpo tridimensional e a energia que existe dentro dele, como essa mente que vai executar esse movimento está presente, enfim, fatores importantes que não podem ser deixados de lado.
Para isso busco beber em fontes como Pilates, Laban, Klauss Vianna (1928-1992), Bernardo de Rezende (Bernardinho, técnico de Vôlei), Flavio Sampaio e poderia citar outros tantos das mais diversas áreas que me fornecem combustível para criar/recriar maneiras de trazer o melhor de cada um todos os dias. Inclusive o meu melhor.


Em seu principal papel, professora. Foto: acervo da artista

Qual o papel de um bom professor?
Patrícia: Em primeiro lugar é preciso educar – para a arte e para a vida. Existe a educação que é de casa (hoje um pouco esquecida), mas não é a essa que me refiro. Educar para saber lidar com as situações que a vida oferece. Respeitar o outro. Fazer com que os jovens entendam que não existe o errado, existe o diferente. Ensinar a não desprezar o trabalho do outro. Por isso, acho importante os festivais de dança, por exemplo. Competir para conseguir o primeiro lugar para ele ou para a escola não pode ser o objetivo. É importante participar para conviver em grupo, ver o que acontece no mundo da dança, adquirir experiência de palco, lidar com a adrenalina no momento da apresentação, aceitar que às vezes se ganha um troféu, outras não, mas que você sempre ganha quando faz o que ama com responsabilidade, paixão, com prazer. Isso é educar.
Outro ponto é a necessidade de o professor estudar sempre. Mostrar também ao aluno a importância da informação teórica como ferramenta complementar para o desenvolvimento da técnica e da expressividade.
E, por último, porém não menos importante, é ter prazer em trabalhar com os mais diversos tipos físicos. Numa sala de aula, você se depara com um grupo heterogêneo e, para mim, isto é uma riqueza.  Mas também um grande desafio. É responsabilidade do professor não apenas perceber o que cada um tem de melhor e lapidar, mas também instigá-los a buscar o seu melhor.

Na sua opinião, como é a formação no Brasil? Os pontos positivos, os negativos, as diferenças.
Patrícia: Uma coisa interessante no Brasil é que não ficamos presos a uma escola ou a uma técnica específica. Acredito que, quando se transita por diversos universos, você tem a possibilidade de experimentar e escolher o que funciona mais para o seu corpo, desde que seja bem orientado.


Montagem de La Bayadère, na Escola de Dança do Teatro Guaíra
Foto: acervo da artista
 Outro ponto importante é a existência dos cursos superiores em dança. Neste tópico encontro pontos positivos e negativos. Os cursos proporcionam uma informação diferenciada que pode complementar a formação do bailarino principalmente no que está relacionado à docência e à pesquisa em dança, isto é positivo. Vejo como negativo achar que somente quem tem formação superior é detentor de maior conhecimento. Existem grandes profissionais que não possuem um diploma de nível superior e são responsáveis pela alta qualidade da dança em nosso país. Volto à questão educacional: é preciso respeitar a história e os profissionais que a fizeram.

Como professora e coreógrafa, o que chama atenção em um aluno? E o que faz dele um artista?
Patrícia: Sem dúvida nenhuma a sede de vida, o brilho nos olhos. Quando estou assistindo a uma aula ou a um espetáculo, dando cursos, coreografando, às vezes tem aquele bailarino que parece ter um ímã. O meu olhar tenta sair dele, mas é impossível. Uma vontade de olhar e olhar de novo, um “querer mais”. E, para mim, isso só acontece com quem é artista de alma, tem vocação. Já tive alunos com excelentes tipos físicos, mas que eram apenas isso, não aconteciam. Por outro lado, já trabalhei com outros que não eram tão favorecidos fisicamente, mas tinham uma garra, uma felicidade em dançar, um brilho especial que conquistaram seu espaço e seus ideais. Isto é vocação. Quando existe a vocação e o talento físico, é perfeito.
Agora uma coisa é certa: ter uma boa cabeça para saber fazer as escolhas certas é essencial. Se não para mim não vale a pena. Dedico todo o tempo e conhecimento aos meus alunos, mas se percebo que ele está fazendo escolhas erradas (e isso inclui drogas, atitudes, etc) e percebo que ele não quer sair deste caminho, mesmo recebendo toda a orientação necessária, nossa história termina ali. A ética e a dignidade fazem um artista ser completo.

Qual maior prazer para um professor?
Natural, de Patrícia Otto,
com Ana Roberta Teixeira
Foto: acervo da artista

Patrícia: Existem vários aspectos prazerosos. Quando você percebe que um aluno está tentando fazer o que você orientou, dedicando-se, atingindo objetivos que ele achava inatingíveis, a felicidade desta conquista, isso é maravilhoso! Acompanhar o amadurecimento do corpo e de um ser humano é muito bom! Ver um grupo de jovens se dedicando nos dias de hoje à arte, é o que me motiva diariamente! Vê-los, depois de anos de convivência, tornando-se boas pessoas e saber que contribuí de alguma forma para isso, me faz ter a certeza de que faço a coisa certa!

Você tem algum sonho? Qual?
Patrícia: Nossa, tenho! Primeiro gostaria que a dança, a cultura em geral, fosse mais valorizada em nosso País! Mas isso todo artista deseja. Mas meu sonho é ter possibilidade de ajudar mais os alunos que não possuem condições financeiras para se dedicar integralmente à dança. Um lugar para alojá-los, com alimentação, estudo, enfim, uma instituição onde eles possam ter tudo o que é necessário para ser um grande artista e um grande cidadão.
Seu aluno Daniel Camargo, em Dom Quixote
Foto: Amir Sfair Filho


Se pudesse, o que mudaria na formação no Brasil?
Patrícia: Gostaria que todos tivessem condições para realizar seu trabalho com dignidade. Que a formação estivesse caminhando lado a lado com a informação, o que nem sempre acontece. Acredito que uma formação mais completa não daria para o mundo apenas artistas de qualidade, mas sim “artistas-cidadãos” de qualidade. E quando digo formação mais completa me refiro à filosofia, à psicologia, à cidadania. Mas acredito que estamos num caminho bem interessante.



Você também é coreógrafa. Como consegue unir as duas formas de trabalho?
Patrícia: Não acho que meu processo de criação esteja muito vinculado ao meu processo de aula.  Nas aulas direciono minhas energias para auxiliar meu aluno a fazer descobertas, (re)descobrir seu corpo. Quando coreografo é outro momento. Às vezes, preciso coreografar algo já definido – é para ser assim e pronto! Outras vezes, tenho a oportunidade de criar com total liberdade, seja de tema, de movimentos. O que existe em comum é que a pesquisa, seja ela qual for (de corpo, bibliográfica, musical, um passeio na rua...), está sempre presente. O pensar a dança! Muitas vezes buscando soluções para a “coreógrafa”, encontro a resposta que a “professora” buscava e vice-versa. Sou privilegiada em trabalhar para uma instituição que me possibilita ser as duas coisas (e outras tantas)! E, principalmente, uma instituição que confia no meu trabalho.