terça-feira, 31 de maio de 2011

A dança em muitos caminhos

Por Flávia Fontes Oliveira

Manoel Francisco | Foto: acervo do artista
Ele dançou ao lado de Márcia Haydée e Ana Botafogo, sempre teve vocação e aptidão física para o balé clássico; participou de montagens de grandes musicais na Europa, como Cats; suas aulas de balé carregam seu modo elegante de dançar. Manoel Francisco é um artista acima de tudo. No palco novamente, agora ele canta e, pela direção, não é pouco. Toma um Trago e Lava o Coração tem Nana Caymmi no papel de diretora.

A dança tem dessas pessoas que nem sempre são conhecidas e reconhecidas do público além da dança. Uma pena – para os dois lados. Manoel Francisco fez 44 anos em abril, dá aulas no Theatro Municipal do Rio de Janeiro e gosta do que faz. Nesse mundo em que transita, o palco é o ponto de partida – e de chegada. “Palco para mim é religião, trabalho árduo, sério, mas absolutamente prazeroso e necessário”, diz ele nesta entrevista.

Viver da dança é viver apaixonadamente. Sem isso é quase impensável enfrentar os desafios da profissão. Quando isso se une à gentileza, na vida, no palco ou em sala de aula, acontece o caso feliz de nos encantarmos ainda mais por esta arte. Manoel Francisco é assim. Um pouco disso tudo está nesta entrevista. Espero que gostem.

Só para finalizar, depois de me responder tantas perguntas, ele estreou no elenco de Lado B, de João Wlamir, no Centro Cultural dos Correios, no Rio de Janeiro, até dia 5 de junho. Esqueci de dizer, é artista múltiplo

Ensaio no Zurich Ballet | Foto: acervo do artista
Como a dança passou a fazer parte da sua vida?
Fui acompanhar uma amiga à sua aula de balé, no Teatro Guaíra, em Curitiba. No fim da aula, a professora perguntou quem eu era, puxou assunto, me sentou no chão, puxou um pé para cá, uma perna para lá, chamou outro professor para ver. Deve ter visto minhas proporções. Em 10 minutos de conversa, ela me convidou para fazer aula. Eu tinha 12 anos. Antes deste episódio, eu nunca tinha visto balé na vida. Fiquei fascinado com aquele mundo novo e peculiar, a disciplina, a seriedade, mas principalmente a beleza que emanava de tudo. Música e movimento aliados de um jeito tão maravilhoso.

Houve um momento de decisão para levar isso profissionalmente?
Houve sim. Quando descobri que tinha talento para dança, eu me apaixonei seriamente pelo balé clássico. Além de ter cursado uma das melhores escolas profissionalizantes do país, que no meu tempo se chamava Curso de Danças Clássicas da Fundação Teatro Guaíra (hoje Escola de Dança Teatro Guaíra), tive o estímulo dos professores. Fui descobrindo aos poucos a musicalidade, vi que eu iria adorar fazer daquilo minha profissão. Nunca quis ser nada além de artista. Eu me empenhei muito, fazia duas, três aulas por dia. Depois de três anos, recebi um convite para fazer audição para o Balé Teatro Guaíra, na época dirigido por Carlos Trincheiras, e passei. Assinei meu primeiro contrato profissional aos 16 anos. Desde então jamais deixei de trabalhar – e somente com meu ofício de artista.

Com Claudia Mota em O Quebra-nozes
Conte-me um pouco de sua formação, com quem dançou, principais papéis, principais professores.  
Quando fui contratado pelo Balé Teatro Guaíra aprendi como um bailarino profissional se porta e o funcionamento de uma companhia. Mas fui ter uma oportunidade maior já no Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, um pouquinho mais maduro, aos 18 anos. Fui promovido a primeiro solista e tive lindas oportunidades de dançar primeiros papéis ao lado de estrelas como Ana Botafogo, Cecília Kerche, Nora Esteves, Bettina Dalcanale, Áurea Hammerli, Claudia Mota, Márcia Jaqueline.
Três anos depois parti para a Europa, onde dancei principalmente no Zurich Ballet, sob direção do coreógrafo genial Uwe Scholz (1958-2004). Lá dancei O Lago dos cisnes, O Quebra-nozes, La fille mal gardée, Coppelia, Giselle, A Bela adormecida, Romeu e Julieta, La Sylphide, Dom Quixote, Paquita, Les Sylphides, além de criações de John Cranko(1927-1973), Maurice Béjart (1927-2007) e Uwe Scholz, principalmente. Fiquei 13 anos na Europa, oito em companhias de dança e depois com os musicais Cats e O Fantasma da ópera. Neste momento, a música entrou definitivamente na minha vida, de maneira profissional, depois de ser um bailarino estabelecido na Europa. Também nesse período estive algumas vezes no Japão e no Egito dançando como bailarino convidado. Trabalhei com Desmond Doyle (1932-1991), Tatiana Leskova, Bertha Rosanova (1930-2008), Jane Blauth, Eugenia Feodorova (1925-2007), Isabel Santa Rosa, Aldo Lotufo, Natalia Makarova, Azari Plisetsky, Vladimir Vasiliev, Peter Schaufuss, Richard Cragun, Márcia Haydée, Dalal Achcar, Desmond Kelly, Shonnach Mirk, Fernando Bujones, entre tantos outros.

O que te encantava no palco? Tem alguma lembrança especial?
Palco para mim é religião, trabalho árduo, sério, mas absolutamente prazeroso e necessário. Nele, eu me sinto mais honesto e verdadeiro, o palco me traz felicidade, estímulo na vida. Ser aplaudido por um Theatro Municipal (do Rio de Janeiro) repleto e entusiasmado é uma sensação inesquecível, assim como ter na plateia dos meus shows minha diretora, Nana Caymmi. Da mesma maneira, ser dirigido pela Marília Pêra em dois trabalhos no teatro que coreografei e fui assistente de direção Doce deleite (2008) e A garota do biquíni vermelho (2010) – neste último também atuei - me deixa feliz.

Como foi a passagem de papeis clássicos para musicais? Fiquei um bom tempo na dúvida, questionava tudo, pois eu tinha medo de “perder” a identidade de bailarino clássico, minha rotina mudaria, com certeza. Com a prática, vi que eu não só continuava o mesmo bailarino de sempre, fazendo aulas todos os dias, como também trouxe outras formas de arte para minha vida. Afinal, eu estava em cena não só dançando, mas usando a voz, a palavra. Minha rotina incluía, além de aulas de balé, aulas de canto, ensaios e oito espetáculos por semana...!!! Segunda-feira era o único dia livre que eu tive durante muitos anos.


Com Ana Botafogo |
Foto: acervo dos artistas
Tem algum momento especial para você nesse tempo? Alguma música especial?
Nunca me esqueço da estreia de Cats, em Milão, em estádio para cinco mil pessoas, abarrotado de gente (Lady Di estava na platéia). Poucas vezes fui aplaudido daquela forma e por tanto tempo, uns três minutos, que pareciam três horas. Eu fazia o gato Mr. Mistoffolles e, no fim do meu solo, o público se levantou para aplaudir. Chorei de emoção. A emoção de cantar é diferente, usar a palavra além do corpo faz diferença; é de outra ordem, mas se complementam. Tudo é expressão, sentimento, entrega, arte, veracidade. Claro que toda vez que subo no palco para cantar o bailarino vem junto, não poderia ser diferente, eu nunca vou deixar de ser bailarino clássico.

Atualmente, a canção que anda habitando meu coração, com insistência, é Somos Iguais, da dupla Evaldo Gouveia e Jair Amorim, que fez muito sucesso na voz do grande Altemar Dutra. Esta canção faz parte do meu show Toma um trago e lava o coração, dirigido por Nana Caymmi. Esse show fez nove semanas de temporada no Rio entre janeiro e março deste ano. Vale comentar que tenho o orgulho de ser o primeiro e único artista que Nana aceitou dirigir – outra emoção na minha carreira.

Em Cats, destaque
em jornal francês
Agora cantar é sua dança?
O cantar é outra manifestação do ritmo, da musicalidade que um bailarino necessita ter, obviamente. Meu canto passa pelo corpo. O que me alegra muito é que continuo trabalhando muito com dança, o canto só vem ocupando mais espaço, mas uma coisa não anula a outra, ao contrario, elas se complementam.

Para você, qual o diálogo entre dança e música?
É necessário ouvido, afinação, sensibilidade, musicalidade para exercer os dois ofícios, por isso eu disse que eles se complementam. Mantenho como cantor a mesma disciplina rígida que o bailarino tem.

 
No show Toma um trago e lava o coração |
Foto: acervo do artista

O que é ser professor? Como a dança continua em sala de aula?
Tenho fascínio em ser professor. Poucas coisas me dão mais alegria do que estar em sala de aula com um grupo de gente talentosa, com ouvidos, olhos bem abertos, corpos atentos, querendo absorver informação, burilando a técnica e a interpretação. Dividir o que aprendi, trocar experiência é uma sensação ímpar. Transmitir uma determinada emoção, colocar em um corpo determinado estilo para que aquilo se torne arte, interpretação, não movimento puro. Fico tinindo de felicidade em contribuir, ajudar, ensinar e assim aprender junto e mais a cada dia.

4 comentários:

  1. Manoel Francisco31 de maio de 2011 23:21

    Obrigado pela delicadeza, a materia ficou linda, estou emocionado com o carinho de voces...!!

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  2. Battement tendu, demi-plié haaaa o demi plié!!!! Grand jeté! Piruette! haaaaa les fouettés de la vie!! Você fez-me dançar sentada, voar nas asas da imaginação, recordar, reviver, reformular e confabular com minha`alma.... merci madame! Que a ARTE lhe seja eterna companheira!

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  3. Bela entrevista e justo espaço dedicado a esssa figura tão comprometida com a arte. Defensor - e praticante - da arte verdadeira, construída entre a explosão da emoção e lapidação que vem da técnica, da entrega e do trabalho dedicado. Tenho orgulho por ter trabalhado com gente como o Manoel.

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  4. Fantastica entrevista!!!

    Fico feliz em ser comteporanea de tão grande e maravilhosa pessoa e artista!!!!

    Desejo ver em muitos locais mais e mais entrevistas tão lindas assim!!!!!

    Muitos Sucessos pra vc Manoel Francisco!!!!!

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